Fim da identidade: avanço político por Marcelo de Troi

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26 de outubro de 2011
por Genilson Coutinho

Marcelo de Troi – especial dos Estados Unidos para Dois Terços

San Francisco tem um micro-clima que impressiona. O fog nasce do encontro entre duas correntes marítimas. Subi o bairro de Twin Peaks para ver de perto a chegada dele, sempre no fim de tarde. Cidade montanhosa em cima da falha geológica de San Andres, com ladeiras que deixam as da cidade de Salvador e São Paulo no chinelo. Tudo é tão íngreme e é preciso disposição para se aventurar nessas ladeiras. Chegando em San Francisco, a primeira coisa que vem a mente é a Castro, avenida que corta o bairro de Eureka Valley e considerado o lugar gay mais famoso do mundo. Lá tudo é permitido no que diz respeito à expressão. Com o frio perto dos 8 graus, não chego a me chocar com um garoto de corpo atlético completamente nu que caminha pela rua com uma toca de Papai Noel e uma capinha minúscula cobrindo a cabeça do pau.

Ações como essa parecem uma forma de enfrentar o puritanismo americano e lembrar que a Castro é território livre, uma cidade a parte que traz na memória de suas calçadas e casas de estilo vitoriano, a luta pelos direitos civis dos homossexuais, a eleição de um primeiro político gay na América: Harvey Milk. A casa onde tudo começou está lá e hoje é uma espécie de museu, onde funciona uma ONG. Embora seja contra o gueto, penso que é um avanço a existência da Castro. E existem muitos outros locais assim nos EUA como a famosa Provincetown, onde dizem que até o prefeito e os vereadores são gays e muitas cidades gay friendly declaradas como Vermont, Santa Fé, Indianápolis.

As conquistas da comunidade gay nos EUA avançaram como em poucos lugares do mundo, principalmente nas cidades e estados costeiros. Nova Iorque, Portland e a Califórnia, onde está San Francisco, parecem conviver de forma muito natural com todo esse universo. Esta semana no Charles River, rio que corta a cidade Boston, capital de Massachusetts e um dos estados mais ricos e avançados, teve uma regata com atletas de todo o país. Entre as equipes, encontrei também uma associação de remadores gays. E assim é com tudo, existem igrejas evangélicas com bandeiras de arco iris, associação de policiais militares gays, trabalhadores, e por ai vai…

A  National Gay and Lesbian Task Force,  força-tarefa nacional de Gays e Lésbicas, por exemplo, tem lançado provocações e reflexões para esta sociedade altamente desenvolvida. Contribuiram para que o presidente Obama revogasse a lei “Don’t ask, don’t tell” que permitia o alistamento de gays e bissexuais desde que eles vivessem no anonimato: não pergunte, não diga. “Minha expectativa é que quando olharmos para trás, nós veremos esses anos como um momento em que colocamos um ponto final contra a discriminação, seja no escritório ou no campo de batalha”, disse Obama em um dos inúmeros pronunciamentos sobre o assunto. Agora, a Task Force está brigando contra as chamadas terapias de mudança, aplicada por psicólogos e religiosos para modificar a orientação sexual das pessoas, o que tem sido igualmente visto como uma violação das liberdades individuais.

Transexualidade é uma coisa muito bem aceita por aqui e conheci muitos transexuais que vivem de forma natural, sem discriminação, inclusive brasileiros. É tão comum que Buck Angel, um homem com vagina, é uma espécie de ídolo por aqui. Buck já fez diversos filmes pornôs e ganhou até matéria na Revista Trip desse mês no Brasil.

A sociedade norte-americana parece viver um mundo particular, em vista do conservadorismo do mundo em geral. A idéia de liberdade e direitos civis ainda tem a força e o entusiasmo das lutas, muitas sangrentas, travadas entre as décadas de 50 e 70. Discrimação aqui dá cadeia e ninguém fica quieto. Existem centenas de comitês, grupos, ONGs, políticos e gente disposta a brigar para fazer a lei valer. O casamento já é permitido em alguns estados e inclusive a adoção de crianças por casais gays vai se tornando um fato normal.

E assim, o mundo vai avançando a passos de tartaruga. Para onde mesmo? Relembrando a  entrevista de Contardo Calligaris, também para a edição histórica da Trip desse mês: “O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais”.

Marcelo de Troi – especial dos Estados Unidos para Dois Terços

A parte toda a associação imediata que as pessoas comuns fazem do mundo gay com as mais diversas fontes de fantasias sexuais, incluindo os body percing, sadomasoquismo, letter (couro) e a enorme fauna dos desejos humanos, e absurdamente até com a pedofilia, tenho a impressão que depois das conquistas dos direitos civis, devemos evoluir para algum tipo de sociedade (e o Brasil está muito, muito longe disso) onde o fato de você transar com homens, com mulheres, não será determinante para o julgamento de seu caráter ou competência profissional.  Afinal, como respondeu Gabeira, em 2008, para uma platéia de universitários ultra conservadores que questionavam sua sexualidade em um debate político quando candidato à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro: “Se sou viado ou não é problema meu. Sou casado e pai de dois filhos. Vou trabalhar com a cabeça e não com o cu”.

 Por

 Marcelo de Troi

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