Ficção nossa em dias futuros por Filipe Harpo

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8 de outubro de 2018
por Genilson Coutinho

Filipe Harpo

Não seremos os primeiros a sentir a porrada. No início da da fila, estarão as travestis. São elas a minoria dentro da minoria. E já que sofrem desde agora, vivendo no submundo, terão seus (parcos) direitos negados e os assassinatos, que já ocorrem impunimente, vão simplesmente triplicar. Irão desaparecer uma após outra e poucos irão ligar. Nada diferente do que acontece hoje…

Depois, as bichas efeminadas e as sapatões caminhoneiras serão chacoteadas, humilhadas. Ai você afirma, elas já são estigmatizadas. Mas pode e vai ficar pior! Como? Héteros intensificarão a humilhação, motivado agora pelo descaso do governo. E o resto da comunidade irá apoiar a decisão. Se você já ouve o argumento de “não precisa ser assim…”, ou “Eu sou gay, mas me respeito”, “Sou discreto” vai ouvir isso em apoio as atitudes homofobicas disfarçadas de correção de comportamento.

Ai, quem está dentro do padrão, não será atacado diretamente. O processo será inverso, haverá silenciamento. Já que padronizar agora não será mais um comportamento simples, mas um ato de sobrevivência. Durinhos e femininas explorarão mais essa faceta, enquanto veem os seus iguais de comportamento mais expansivo serem humilhados.

Bissexuais, óbvio, colocarão pra fora a sexualidade normativa. Com o tempo a sexualidade será reprimida, dando lugar a comportamentos sexuais esporádicos e extremamente casuais em lugares cada vez mais escondidos. As relações se dissipam e o grupo minoritário fica cada dia mais fraco, mais distante em silencio.

A forma antiga de chegar e bater não faz mais jus aos novos tempos. Lugares LGBT podem muito bem ter um imposto diferenciado. Ou revistas policiais recorrentes, sempre acharem algo errado nesses ambientes, imprensa incentivada a falar mal de ambientes gays. Desaparecerão com o passar do tempo, pois… sustentar um comercio com gasto tão grande/vigilância policial tão acirrada, em uma país em “crise” não é pra todo mundo…

E a economia? Ela vai ficar ÓTIMA! É assim que o governo ilude o povo e come pelas beiradas. Mais emprego – mesmo sob condições sub humanas – mais “poder de compra” para o trabalhador… todo mundo feliz normativamente… Sobra para cada minoria efetiva. LGBTs, logo depois religiões de matriz africana…

Claro, existirão protestos. Poucos irão protestar, pois o medo já foi instaurado. Mas o levante estará vivo. É aí, que a força bruta chega. A policia, feita para proteger os interesses do Estado, cumprirá o seu papel, colocando os poucos em marcha contra a parede. Vários feridos, alguns mortos, mas o importante é manter a massa em contínuo silencio. Mais protesto, mais violência…

Com as minorias efetivas silenciadas ou mortas, o Governo agora age contra as minorias ideológicas. Negros e mulheres! Pois o Poder sabe, esses dois grupos não são minorias. O levante se acontecer por este viés, coloca tudo a perder. O sistema come as minorias efetivas, explorando suas contradições, brigas internas etc e logo depois trabalha com outros grupos de maior tamanho, mas menor representatividade.

Observe, um bom projeto ditatorial, não começa exatamente pela violência física, arbitrária. Pra que? Para perder a guerra? Não! O silencio é construído, o medo plantado na cabeça das pessoas e o falso respeito é instaurado como “lei” e ordem. Assim, o Governo não precisa fazer muito para continuar soberano.

Lembrou da escravidão não foi? Onde senhores de engenho brancos juntavam negros de origem diferentes para evitar comunicação e consequentemente um levante. Ou separavam negros por cor. Mais claros para Casa Grande e mais escuros para a Senzala. Entregue trabalho diferenciado e estimule vez por outra a distinção entre os grupos. Os mais claros, com o tempo, acharão o Senhor Branco bom e protegerá ele em muitas ocasiões.

A ditadura, não se instala como nos filmes. Cena 1: o regime já instaurado, guerra de sabres de luz, correria, naves explodindo… Os primeiros momentos dela são de um silencio insuportável. A gente vê os nossos morrendo da nossa frente. Mas a gente tem uma forma de sobreviver. Qual? Sendo diferente. Então seremos. Mesmo isso não nos representando completamente.

Quando você acordar vai ver ao redor tudo tomado. E cuidado a realidade é escrota! Diferente dos filmes, não há Máquina do Tempo, ou uma realidade paralela surgindo no último instante para consertar tudo… Abra o olho viado! Abra o olho sapatão! Agora! Enquanto há tempo…

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.