Fernando Guerreiro abre o verbo na Sala Vip

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11 de abril de 2011
por Genilson Coutinho

 

Atores dos Cafajestes

 

Diretor de teatro baiano premiado e de muito sucesso, com mais de 30 espetáculos montados e três décadas de carreira, Fernando Guerreiro conversou com a equipe do Dois Terços no intervalo dos  ensaios  do  espetáculo O indignado no Teatro Castro Alves.

. Diretor de sucessos como A Bofetada; Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia e Pólvora e Poesia, Fernando Guerreiro também é comentarista do programa Roda Baiana, da Rádio Metrópole, e conversou com o Dois Terços sobre sua paixão pela dramaturgia e pelo teatro, a briga histórica entre comédia e tragédia e a atual onda de homofobia nas grande metrópoles brasileiras.
Oficina Condensada Dois Terços: O que te atraiu ao teatro?
Fernando Guerreiro: Essa é uma pergunta de três décadas. Eu era telemaníaco na adolescência. Era a época das grandes novelas. Tinha até a novela das 22h. E eu queria muito entrar no mundo da TV. O problema era a programação local pois não se fazia teledramaturgia na Bahia. Já que não consegui fazer televisão, resolvi que ia fazer teatro. Daí comecei a ver muito teatro. Estudava no Marista e tinha uma disciplina de iniciação artística da qual participei. Resolvi fazer o primeiro curso de teatro em 1977 no Gamboa. Nesse curso, estudava para ser ator mas eu logo percebi que era um péssimo ator, achava um porre. Aí, eu resolvi dirigir e comecei a me meter na direção. Nesse próprio curso, já dirigi o trabalho final. […] O Gamboa era um teatro pequeno mas vivia cheio, de terça a domingo. Foi quando comecei a me convencer que o teatro poderia ser um modo de subsistência.

DT: A Bofetada já está em cartaz há 20 anos. Como é ver este filho tornar-se adulto?
FG: Quando ela fez vinte anos, eu larguei. Entreguei para Lelo porque começou a me dar vontade de mexer. É genial o que aconteceu porque a peça foi um divisor de águas juntamente com o grupo Los Catedrásticos. Não tínhamos a menor ideia de que ia virar o que virou. A peça tinha a cara da Bahia e tinha um elenco primoroso, imbatível. Foi o casamento daquele humor com o meu humor. Eu creio que sucesso é casamento pois o sucesso é o resultado da sintonia. Os meus grandes sucessos são sempre frutos desses casamentos. […] Eu ainda cheguei a me formar em Economia e trabalhar em banco, mas A Bofetada nos obrigou todos a optar por ir embora da Bahia – a optar pelo teatro. Para fazer o espetáculo no Rio de Janeiro, largamos tudo. Foi engraçado porque, na época, havia uma briga entre o humor carioca e o jeito de fazer humor paulista. Os jornais paulistas começaram a dizer que quem sabia fazer humor era São Paulo e Bahia. […] Quando A Bofetada estourou ela era bastante transgressora. O público não esperava.

PÓLVORA E POESIA DT: O que te atraiu em Pólvora e Poesia?
FG:
A possibilidade de voltar a experimentar. A comédia tem facilidades: você consegue patrocínio mais rápido e atrai mais público. Eu estava há quatro anos sem fazer um espetáculo dramático e era a história de uma grande paixão. Rolou ainda aquela discussão: é uma peça gay, ou não é. Eu, particularmente, acho que é uma grande história de amor. […] A temática do amor entre dois homens era uma coisa interessante de ser contada também. Por isso resolvi cutucar e colocar a cena de sexo. Afinal era uma relação carnal, passional. Senão não ia ter tiro. Amigos não trocam tiros, só amantes.

DT: O mundo mudou…
FG:
A realidade pode ter mais conquistas, mas tem uma nova etapa a ser vencida. Quando mais visibilidade tem um grupo, maior a reação a esse grupo. Não estamos vivendo um retrocesso com essa onda de violência homofóbica, estamos vivenciando a reação a essa nova etapa, onde casais se beijam e andam de mãos dadas em locais públicos. Paralelo a isso, tem o crescimento das religiões retrógradas…

Cinco indicações Braskem 2011

DT: Você nota preconceito em relação à comédia (em detrimento à tragédia)?
FG:
Eu nunca ganhei prêmio na Bahia fazendo comédia, que é sim considerada historicamente um gênero inferior […] O que eu acho importante ressaltar é que existem comédias e comédias e que, embora seja fácil ensinar um ator a fazer tragédia é muito difícil ensiná-lo a fazer comédia porque demanda controle do ator, e da reação da plateia. Sou apaixonado pelo humor e gosto de fazê-lo com “criticidade”. Qual é a essência do humor? É o deboche. Você tem que ser debochado consigo mesmo e por isso eu acho que é o gênero que é a cara da Bahia. O baiano ri de si mesmo. Porém como tudo em excesso é desagradável, tem que onde começa e onde termina a baixaria.

DT: E o humor serve para falar de coisas sérias…
FG:
Sempre que posso, trago para o rádio as notícias do mundo gay, com tom de humor, apesar de ser um programa vespertino. Porque é na hora em que você diverte ou se diverte que você pode discutir as coisas de forma mais leve, batendo contra o preconceito.
Foto: Genilson Coutinho