“Feliciano é uma aberração política”, diz ativista baiana sobre omissão do governo federal

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17 de abril de 2013
por Genilson Coutinho

Por Lucas Caldas, especial para o CORREIO NAGÔ

“O Homem que afronta o Brasil”, foi este o título dado para Marco Feliciano (PSC – SP) na capa edição 2.263 da revista ISTOÉ, publicada no último dia 03 de abril, o deputado-pastor assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos em 07 de março deste ano. Um dos principais objetivos da pasta é a investigar denúncias, fiscalizar programas governamentais e colaborar com ONGs, sempre atuando em defesa dos direitos humanos.

Famoso por declarações racistas, homofóbicas e de intolerância religiosa, Marco Feliciano é caracterizado com uma aberração política, segundo socióloga e Mestra em Ciências Sociais pela UFBA, Vilma Reis: “Frente aos avanços da nossa sociedade, Feliciano é uma aberração. Ele age de forma austera, principalmente contra a população negra e os grupos LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros)”, avaliou a socióloga. No entanto, o pastor segue na presidência da comissão, há mais de um mês, mesmo com o frequente clamor nacional pela sua renúncia.

De acordo com o senso divulgado em 2010 pelo IBGE, 10% da população brasileira se declara pertencente ao grupo LGBTT, ou seja, cerca de 20 milhões de pessoas. Artistas influentes, como a apresentadora Xuxa Meneghel, o cantor Caetano Veloso e a atriz Fernanda Montenegro, além de alguns veículos de comunicação como a revista ISTOÉ, acima citada, também endossaram o coro contra a permanência do deputado frente à Comissão dos Direitos Humanos.

Transformando a CDH em um palco da inexistência da democracia, Feliciano também é conhecido por ações intransigentes com os militantes que protestam contra ele, não raramente impede a entrada de grupos em defesa dos direitos humanos no plenário e transfere audiências para salas fechadas. No último dia 10, a comissão aprovou requerimentos em uma reunião restrita a deputados, imprensa e assessores parlamentares. Acerca disto, a deputada petista Erika Kokay (DF), assegura: “Estamos em obstrução, porque não reconhecemos a presidência da comissão e não achamos que é legitima a sua assunção à presidência”.

No início do mês Marco Feliciano desembarcou em Salvador para participar do 20º Congresso do Poder do Impacto do Espírito Santo, encontro que aconteceu em uma igreja evangélica no bairro da Ribeira. O pastor foi recebido por integrantes de movimentos contrários a sua eleição para a presidência da Comissão dos Direitos Humanos, mas fugiu do tumulto e entrou por uma porta lateral e não se dirigiu à imprensa. Em entrevista ao BATV (TV Bahia, 05/04) e contra os militantes, alegou Isidório Santana, deputado estadual e pastor. “Não é um grupo de meia dúzia de pessoas que vai ditar esta nação”. No Rio de Janeiro, no domingo em que o deputado completou um mês na presidência da CDH, um manifesto contra Marco Feliciano reuniu cerca de 300 manifestantes, dentre eles religiosos e artistas, em Copacabana.

Oportunismo político: Enquanto as manifestações pela renúncia do presidente da Comissão dos Direitos Humanos permeiam por todo o país, o Governo Federal e consequentemente a presidenta Dilma Rousseff permanecem omissos: “Dentro do PT há muitas divergências, este silêncio da presidenta, não atinge diretamente, e apenas, as questões LGBTT, Dilma está encurralada porque tem medo da postura da imprensa conservadora e golpista. Há uma omissão em nome da governabilidade, em nome de uma maioria no Congresso”, avalia a ativista de combate ao racismo, sexismo e a promoção da igualdade, Vilma Reis.

(Foto: Josafá Araújo)

A socióloga ainda defende o “empoderamento” de TVs educativas: “O atual governo brasileiro, com 10 anos no poder, não foi capaz de dar concessão para grupos menos conservadores. Se isto tivesse ocorrido, o PT não estaria passando por isso. Dilma terá que enfrentar o debate que Cristina Kirchner e Hugo Chávez enfrentaram em seus respectivos países. Ao mesmo tempo em que as emissoras brasileiras abrem debates em torno de questões sociais, elas são carregadas de conservadorismo”, finalizou.

Declarações de Marco Feliciano: O deputado evangélico defende que os ancestrais que povoaram a Etiópia, são descendentes amaldiçoados de Noé e esse seria o motivo das doenças e da miséria naquele continente, que originou a etnia negra. Ele também atribuiu a AIDS como um “câncer gay” e criticou o cantor John Lennon, morto a tiros por um fã em 1980, que disse em uma entrevista que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. “A minha bíblia diz que Deus não recebe esse tipo de afronta e fica impune. Eu queria estar lá no dia em que descobriram o nome dele. Ia tirar o pano de cima e dizer: me perdoe, John, mas esse primeiro tiro é em nome do pai, esse é em nome do filho, e esse é em nome do espírito santo. Ninguém afronta Deus e sobrevive para debochar”, disse o pastor em um dos seus cultos.

Sobre a Igreja Católica, Feliciano também atacou. “Eu conheço Deus… Não é o Deus desta religião morta e fajuta… Se há algum católico aqui (referindo-se aos presentes no culto)…, está em busca de ‘alentamento’. Primeiro você não pode sentir aquilo que nós sentimos sem experimentar o Deus que nós sentimos. ‘Não pastor, não pastor, mas eu sou carismático, eu até aprendi a falar em línguas, botar uma fita no rádio e eu decorei.’ Esse avivamento é o avivamento de Satanás… Por que é que você não pode experimentar o mesmo avivamento? Porque o seu Deus não é o mesmo que o meu… O meu Deus exige santidade, santidade física e de alma”, declarou.

De acordo com o portal UOL Política, o pastor Carlos Lorenzetti, presidente do Conselho Eleitoral da Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil, disse que as declarações homofóbicas e racistas do deputado-pastor Marco Feliciano não representam o pensamento geral dos fiéis e pastores da Assembléia de Deus, à qual o parlamentar é vinculado. “Ele não espelha o pensamento geral dos evangélicos. Ele espelha o pensamento dele. Ele não fala por mim. Se ele quer pensar assim, eu respeito à opinião dele como respeito a de todos.”, garantiu.

Por nota, o Partido Social Cristão, legitima a manutenção de Marco Feliciano na Comissão dos Direitos Humanos: “O PSC não abre mão da indicação feita pelo partido. O deputado Marco Feliciano foi eleito por maioria dos membros da comissão. Se ele estivesse condenado pelo Supremo Tribunal Federal, nem indicado seria. Feliciano é um deputado ‘ficha limpa’, tendo então todas as prerrogativas de estar na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias”.

Em tempo: Ao decorrer da atual gestão de Marco Feliciano sob a Comissão dos Direitos Humanos, nenhum projeto foi aprovado. A CDH limitou-se apenas a analisar requerimentos, sobre isso, o pastor afirma que os projetos que estão na comissão são muito polêmicos e causariam uma “celeuma” e pediu aos parlamentares que solicitem à Mesa da Câmara o encaminhamento de outros projetos à comissão.