Famílias pela Diversidade: um novo coletivo LGBT+ nasce na Bahia

Comportamento, Social
17 de novembro de 2016
por Genilson Coutinho

Grupo celebra o novo grupo

Um novo coletivo de luta por direitos da população LGBT+ acaba de nascer na Bahia. O grupo “Famílias pela Diversidade” foi fundado no último dia 15, após integrantes do coletivo Mães pela Diversidade em atuação na Bahia decidirem se desligar do movimento nacional. A coordenação geral do grupo recém-criado fica sob a condução da ativista Inês Silva. Com o novo formato e conceito, pretende-se dar visibilidade, voz e caráter legítimo de representatividade a todas e todos integrantes da nova entidade.  As razões da dissolução foram apresentadas em uma carta pública que reproduzimos abaixo. Carta de anúncio da dissolução do grupo Mães pela Diversidade – Bahia e de criação do coletivo Famílias pela Diversidade Nós, 55 ex-integrantes do grupo Mães pela Diversidade em atuação na Bahia na sua antiga composição, deliberamos pela dissolução do coletivo estadual no dia 15 de novembro de 2016, de modo a acompanhar a coordenadora Inês Silva em sua decisão de se desligar da entidade nacional, fato ocorrido no último dia 13. O grupo iniciou suas atividades na Bahia em 2014 e, até o seu recente encerramento, participou de aproximadamente 115 eventos voltados à defesa da população LGBT, o que equivale a um evento a cada semana dos seus mais de dois anos de existência, tendo organizado ou participado diretamente da organização de cerca de 25 deles. Não nos restringimos à Capital e estendemos nossa atuação para o interior do Estado, com representantes e atividades em Cruz das Almas, Inhambupe, Juazeiro, Luís Eduardo Magalhães, Seabra, Teixeira de Freitas e Vila de Abrantes. Uma prestação de contas Das nossas realizações, destacam-se dois grandes encontros do grupo Mães pela Diversidade, ocorridos em Salvador, em novembro de 2015 e setembro de 2016, para debater temas essenciais como saúde e segurança para a população LGBT. Também promovemos dois importantes eventos em 2016, destinados à capacitação das Mães pela Diversidade na Bahia, com a presença de dois psicólogos que discorreram sobre questões diversas da sexualidade, um assistente social que apresentou explanação sobre saúde LGBT e um advogado que tratou de aspectos jurídicos dos direitos da população pela qual lutamos. Pusemos em prática o empolgante projeto “Braços que se abraçam – Mães pela Diversidade nos bairros”, sendo ele inaugurado em Cajazeiras, bairro bastante populoso de Salvador, com uma vida de intensidade inspiradora. Ainda com o pensamento voltado para os bairros, iniciamos negociações com a Secretaria Estadual de Educação, para tornar concreto o projeto “Mães nas Escolas”. Porém, nossa atuação nas escolas já vem de longas datas. Participamos de amplos debates com alunos da UNIFACS e dos Colégios Integral, Zumbi dos Palmares, Henriqueta Martins Catharino e duas vezes no Colégio Estadual Presidente Costa e Silva Realizamos parcerias sólidas e até hoje mantidas com o Ministério Público do Estado da Bahia, Defensoria Pública da Bahia e a Comissão da Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da Ordem dos Advogados do Brasil – Sessão Bahia, além dos nossos constantes diálogos com a Polícia Militar do Estado da Bahia. Conseguimos agregar um número expressivo de voluntários e contamos com a participação efetiva de psicólogas(os), médicas(os), assistentes sociais, enfermeiras(os), advogadas(os), educadoras(es), jornalistas, designers, empresárias(os), entre tantos outros apoios fundamentais. Também estreitamos relações com organizações não governamentais, como Viva a Vida, Grupo Gay das Residências (UFBA) e Grupo Gay da Bahia. Além disso, realizamos parcerias com o Projeto Axé para uma possível criação de casa de acolhimento temporário para pessoas LGBT expulsas dos seus lares até conseguir reintegrá-los às suas famílias. Com muito esforço, empenho e negociações intensas com a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia e o Hospital Universitário Professor Edgar Santos (UFBA), estamos a um passo da abertura do primeiro ambulatório transexualizador na capital baiana. E no empenho em construir pontes com o poder público, participamos de reuniões com os secretários de Estado José Geraldo dos Reis Santos, da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS), Fábio Vilas-Boas, da Secretaria da Saúde, e Maurício Teles Barbosa, da Secretaria de Segurança Pública, com o chefe da Casa Civil do Estado da Bahia, Bruno Dauster, e com o próprio governador Rui Costa. Criamos o S.O.S LGBT, atuante grupo de discussão no WhatsApp, uma rede de ativistas sociais, profissionais e agentes do poder público para atender de forma rápida pessoas LGBT em condições de vulnerabilidade. Ainda na mesma plataforma virtual, dividimos mães e pais em frentes de trabalho, com equipes de acolhimento, planejamento, eventos, educadoras(es), financeiro e comercial, comunicação e marketing, além de mães artesãs. Temos orgulho de dizer que construímos o maior ato de protesto LGBT já visto em Salvador, “Chega de LGBTfobia!”, marcha realizada no bairro do Rio Vermelho, com a participação de mais de mil pessoas, para denunciar a violência contra gays, lésbicas, trans, bis, mulheres cis, negras, negros e demais sujeitos vulneráveis. Promovemos o lúdico Piquenique LGBTTTIQAS, no Parque da Cidade, também em Salvador, com realização de jogos, oficinas e rodas de conversa. Ainda na conta do combate à violência LGBTfóbica, reunimo-nos com representantes do Ministério Público do Estado da Bahia e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Bahia, bem como com familiares de Leonardo Moura e Cláudio Ferreira para averiguação das investigações de suas mortes em condições suspeitas. Fizemos questão de debater políticas ao participar de eventos como Conferência Municipal de Políticas Públicas e Promoção da Cidadania LGBT, III Conferência LGBT do Território Metropolitano de Salvador, Conferência pública para o orçamento participativo 2017 da Defensoria Pública da Bahia, Primeira Reunião Ampliada dos Movimentos Sociais pela Integralidade do Plano Estadual de Educação da Bahia, Audiência Pública em Defesa do Plano Municipal de Educação, votação do Plano Municipal de Educação em Salvador, Conferência Temática LGBTI da Defensoria Pública da Bahia, reuniões do Comitê de Saúde Integral da População LGBT da SESAB e evento promovido pala Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Além disso, o grupo Mães pelo Diversidade tinha sido habilitada a participar das eleições para o Conselho LGBT do Estado da Bahia, que serão realizadas no próximo dia 28. Com frequência, divulgamos amplamente o nome das Mães pela Diversidade na grande mídia. Participamos do documentário “Pedaço de mim”, dirigido por Fernando Jesus, que aborda a descoberta da homossexualidade na família, e também da gravação de documentário para série da HBO, com direção de Tatiana Issa. Fomos entrevistadas por mais de uma vez pelas rádios Metrópole, Band News e Educadora. Estampamos a capa de uma edição da revista Muito, do Jornal A Tarde. Participamos de gravações para os programas Soterópolis e Multi, ambos da TVE. Alcançamos a populosa comunidade dos Bairros de Santa Cruz e Nordeste de Amaralina, com entrevistas para a Rádio da Gente. Estivemos presentes no 2º Congresso Nacional Online Sobre Diversidade Sexual e Gênero. Participamos das 14ª e 15ª Paradas LGBT da Bahia, em Salvador, com trios exclusivos das Mães pela Diversidade, em 2015 e 2016. Ainda na programação da parada de 2015, participamos do debate “Famílias fora do armário”, integrante da IV Semana da Diversidade. Também estivemos presentes nas paradas LGBT nas cidades de Rio Janeiro (2015) e São Paulo (2015 e 2016). Mais recentemente, marcamos presença na VII Parada do Orgulho LGBT de Sapeaçu, Bahia. Agitamos com performances em atividades culturais como “Minha Mãe é uma Drag” e “Show da Diversidade”. Apoiamos o “Sarau Acolher Educação em Direito”, da Defensoria Pública da Bahia. Participamos da organização do evento “OAB pela Diversidade”. Estivemos no lançamento da revista “Soul – Gênero e Diversidade” e do livro “O Tesouro das Fadas”, de Vinicius Mythical. Deliciamo-nos com o “1º Café da manhã LGBT do IDEBA” e “VIII Caruru da Diversidade”. Entramos em forma com o “Treino Plus”, promovido pelos coletivos Eu me Amo, Eu Amo Minhas Curvas e Gordinhas Lindas da Bahia. Prestigiamos o lançamento dos documentários “Para além dos seios” de Adriano Big, e “Cores e Flores para Tita”, de Susan Kalik. Debates públicos, esses foram tantos, ao todo 29 eventos. Por isso, seria injusto citar apenas alguns, mas eles consolidaram algumas parcerias importantes como os coletivos Sem Tabus, TamoJuntas e Eu me amo e amo minhas curvas, além da Faculdade Ruy Barbosa, Igreja Batista Narazeth, Instituto Profissionalizante de Educação e Capacitação – IPEC e site Dois Terços. Conflitos com conduções e diretrizes da coordenação nacional Sim, foram muitas as realizações, do mesmo modo que também foram grandes os obstáculos e frequentes os percalços enfrentados. Apesar de tudo, o grupo Mães pela Diversidade – Bahia mostrou-se incansável, determinado, ousado e, por tudo isso, pioneiro em muitos aspectos, tendo conquistado o destaque merecido.  Tudo que fizemos na Bahia foi fruto do nosso esforço, da nossa criatividade e do nosso talento para traçar estratégias, costurar alianças e concretizar nossos projetos. Nenhuma outra coordenação estadual realizou tanto e nós passamos a ser referência nacional. Apesar da inegável referência de luta em prol dos direitos da população LGBT que é o movimento Mães pela Diversidade no País, não houve da coordenação nacional iniciativas de capacitação de seus membros, de criação de regimento interno com definição clara e acessível a qualquer pessoa das diretrizes do coletivo, de planejamento de ações e cronograma de atividades a nível nacional. Também nunca houve apoio financeiro às nossas ações aqui. Por isso, reconhecemos sem falsa modéstia as ações empreendidas pelo grupo da Bahia como louváveis e exemplares. Porém, é imprescindível destacar que tudo aqui conquistado foi resultado de uma soma de esforços de uma equipe heterogênea, não apenas formadas por mães e pais de pessoas LGBT, mas pelas próprias pessoas LGBT e até mesmo simpatizantes sem essas vinculações tão estreitas. Por essa razão, o fator talvez mais determinante da ruptura que ora anunciamos diz respeito à orientação da coordenação nacional de não legitimar como porta-vozes do coletivo aqueles membros que não são mães ou pais de pessoas LGBT, por mais empenho que eles demonstrem e por mais propriedade que tenham para defender nossas questões. Isso soa incoerente e excludente. A sensação de não pertencimento ao grupo tomou conta do espírito dessas pessoas e perdê-las seria inevitável. A ruptura foi então um caminho sem escolha, foi o que nos restou. Um novo projeto: o coletivo Famílias pela Diversidade Chegou o momento do grupo da Bahia se renovar e seguir seu próprio caminho, com uma proposta ampla, capaz de acolher a todas e todos sem distinção e dar-lhes a capacidade de representatividade legítima do nosso coletivo. Surge então um novo coletivo em que não somos apenas mães e pais. Somos filhas, filhos, irmãs, irmãos, avós, avôs, netas, netos, tias, tios, sobrinhas, sobrinhos, além de amigas e amigos e toda uma rede de afetos que se chama família. Somos as “Famílias pela Diversidade”. Começamos grande. Ninguém conquistou um número tão expressivo de parceiros e voluntários como nós da Bahia. Ninguém realizou a quantidade de trabalho que nós realizamos. Apostamos alto e isso nos custou enormes sacrifícios, mas não nos arrependemos. Que as experiências compartilhadas no percurso até aqui sejam a alavanca para alcançarmos a alegria de chegar ao destino almejado. O nosso agradecimento àquelas(es) que, mesmo de longe, mas sempre presentes, quiseram-nos bem e nos apoiaram nos bons e nos maus momentos. Que dividam conosco os méritos desta conquista, porque ela pertence a cada um(a) de nós. Uma despedida é necessária para revermos nossos conceitos e posicionamentos antes de podermos nos encontrar outra vez. A solidez do que construímos juntas(os) será duradoura e presente em cada novo passo. Somos hoje a filha ou o filho que precisa seguir seu próprio caminho, encontrar seu próprio destino, desobedecer ordens para trazer novas soluções. Hoje dizemos um até breve ao grupo Mães pela Diversidade para poder nos reinventar, mas a vontade de somar nunca desaparecerá. E que a despedida de agora seja seguida de muitos reencontros. Vida longa às “Mães pela Diversidade” Vida longa às “Famílias pela Diversidade”