“Falta investimento e interesse para fidelizar o turista gay”, diz presidente da ABRAT GLS

Sala VIP
16 de agosto de 2016
por Genilson Coutinho

Em entrevista especial ao Dois Terços, a presidente da Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes , Marta Dalla Chiesa, falou sobre o turismo GLS  no Brasil e o cenário dos jogos olímpicos no Rio. Ela falou também que tem observado os rumos e a impotência das paradas gays no País e da falta de eventos para as lésbicas.

Marta iniciou a carreira em turismo há 15 anos na maior operadora especialista em América Latina do Reino Unido. Atua no turismo LGBT desde 2009, quando se tornou a Diretora de Relações Internacionais da ABRAT GLS. Atualmente, é Presidente do Grupo de Trabalho para o Segmento LGBT da Secretaria de Turismo do Estado de Santa Catarina. Fez parte do Conselho de Diretoria da International Gay & Lesbian Travel Association (IGLTA) por 6 anos e é presidente da ABRAT-GLS desde 2012.  Marta é co-fundadora e atualmente sócia-diretora da Brazil Ecojourneys, operadora receptivo gay friendly, baseada em Florianópolis, desde 2003, focada exclusivamente no mercado internacional. Confira a entrevista completa:

Dois Terços – Os jogos olímpicos atraíram muitos turistas LGBT ao Brasil. Você notou algum diferencial no que se refere ao atendimento a este público pela organização?

 Marta Dalla -O público LGBT, historicamente, é bem antenado com os jogos olímpicos e esperávamos ter uma grande participação da comunidade. Infelizmente, vou ter que dizer que tanto o Rio de Janeiro, quanto o COB [Comitê Olímpico Brasileiro] ignoraram esta parcela do público e não se esforçaram em fazer nenhuma campanha de promoção ou de preparo específico dos agentes do turismo para isto. A sorte é que o Rio é uma cidade que recebe, querendo ou não, muitos gays, portanto existe uma aceitação boa e, normalmente, não há problemas de discriminação para os turistas. Mas acho que poderíamos ter feito muito mais.  A Pride House Rio, que seria o símbolo desta receptividade ao público LGBT, como aconteceu nas Olimpíadas de Londres e no PanAmericano de Toronto, não recebeu apoio oficial. Saiu na cara e na coragem das ONGs e das Associações da comunidade, como a CDG Brasil.

DT As paradas gays, que foram motivos de celebração pela comunidade gay, hoje são muito criticadas. Você acredita que essa formula está desgastada?

MD– Eu até concordo com algumas críticas, mas, por exemplo, eu acho que a Parada de São Paulo está melhorando em vez de piorar. Os números são menores, mas ela está muito mais “gay” do que há 5 anos. E este ano, pela primeira vez desde que eu participo, ela foi uma Parada extremamente politizada, o que eu acho muito positivo. Neste momento, os LGBT não podem ficar em cima do muro. Precisamos nos engajar politicamente ou vamos ter grandes retrocessos nos nossos direitos.

DT Receber bem o turista LGBT é o grande desafio das grandes cidades brasileiras. Quais delas você acredita que estejam preparadas?

MD Eu acho que ainda continuamos com este desafio e as cidades ícones continuam sendo as que mais se preparam. São Paulo, Rio, Florianópolis, Recife e Porto Alegre são algumas que posso mencionar que tem feito um trabalho neste sentido. Salvador fazia, não tenho visto muita coisa neste sentido ultimamente, então não sei como está a situação lá. Em termos de promoção para o turista LGBT internacional, a Bahia parou de fazer há alguns anos. A ABRAT GLS gostaria de aumentar a sua atuação lá, mas ainda não achamos os parceiros institucionais para isso.

DT O turismo é muito voltado para o publico masculino. E o público feminino, o que tem atraído elas nestes roteiros ?

MD Realmente, a oferta para o público feminino no Brasil é muito limitado, praticamente não existem ofertas específicas de pacotes nacionais. Há algumas ofertas mistas, como exemplo o #GaySurfBrazil, um evento de surfe que organizamos anualmente em Santa Catarina e que tem tido participação de mulheres. As lésbicas que conseguem viajar pra fora já acham mais ofertas, como os cruzeiros da Olívia, as aventuras da Wild Women Expeditions, uma empresa canadense com ofertas bem bacanas, e os Festivais que ainda são os eventos mais numerosos, como o Dinah Shore e o Acqua Girl, nos Estados Unidos, e o Ella Festival, que é um festival cultural maravilhoso nas Ilhas Mallorca, na Espanha, que tenho certeza que as brasileiras iriam amar.

DT O que falta nas cidades brasileiras para fidelizar esse nicho de mercado?

MD Falta investimento e interesse. Na sensibilização e capacitação do trade, em apoio a eventos LGBT e na promoção dos destino como friendly. E, principalmente, serem cidades que realmente abracem a diversidade. Não é por acaso que as cidades que mencionei acima são as “top” no Brasil: são as que possuem legislação anti-discriminação e maioria tem coordenadorias de políticas LGBT ou Conselhos Municipais LGBT.  Estas ações fazem que o turista LGBT realmente se sinta em casa. Não basta falar que é friendly, tem que ser friendly.

DT Quais fatores você acredita que seja fundamental na hora da escolha de um roteiro GLS pelos turistas?

MD Além de ter atrativos turísticos, obviamente, a questão de ser realmente “amigável” pesa bastante na escolha do destino, como mostram repetidamente muitas pesquisas internacionais.  O fato de terem leis ou ações pró-LGBT conta mais na decisão do turista de visitar um local, do que ele ter estabelecimentos ou eventos específicos. A recomendação de alguém que teve uma experiência positiva, principalmente na era das mídias sociais, também é fundamental. Por isso, receber mal é um tiro no pé.

DT Salvador está no caminho certo para atender essa demanda?

MD Estou um pouco por fora das ações de Salvador, pois já faz alguns anos que a ABRAT GLS fez um evento lá e não temos visto a Bahia em eventos turísticos promovendo o turismo LGBT.