Exposição que retrata pessoas cis e transgêneras continua em cartaz em Salvador

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29 de junho de 2016
por Genilson Coutinho

Publigo registra a passagem na exposição/ Foto: Genilson Coutinho

A maneira trágica como se deu a vida e a morte de um familiar próximo permeou, durante anos, o imaginário da fotógrafa paranaense Andréa Magnoni. A história se deu em Terra Roxa, interior do Paraná, nos idos da década de 70. Renato Tita, um jovem homem trans, de 15 anos, sofreu um estupro corretivo, do qual engravidou. Diante de tamanha agressão, desistiu da vida e se envenenou, ele foi “suicidado” como tantas outras pessoas trans.

Reflexões como “o gênero não está entre as pernas, mas sim entre as orelhas” além do olhar cuidadoso sobre a identidade de cada pessoa, lhe serviram de inspiração para montar a exposição “Cores e Flores para Tita”, que estreou em maio e fica em cartaz até 10 de julho, tendo já  recebido mais de mil e quinhentas pessoas.

A exposição traz 139 fotos espalhadas no ambiente, permeadas pelos relatos pessoais das fotografadas, fotografados e fotografades, e relatos poéticos de Lisa Vietra (atriz e escritora) e Tito Carvalhal (homem trans e poeta), que descrevem a história de Renato Tita. Há ainda duas instalações artísticas sobre o personagem central, e uma outra com mil etiquetas de identificação cadavérica contendo as iniciais dos nomes, idade do óbito, cidade e causa mortis, um ato simbólico contra a transfobia no Brasil.

 Cores e Flores para Tita

O projeto teve uma bela de realização. Foram produzidos 02 novos ensaios fotográficos, sobre feminilidades e não-binaridades, que juntos ao primeiro, masculinidades, já realizado por Magnoni em 2014, formam o ensaio completo “Cores e Flores para Tita”, com 139 fotos. Além disto, em janeiro, foi realizada a oficina fotográfica exclusiva para pessoas trans, que frutificou na exposição “SOLIDÕES TRANS E TRAVESTIS”, com fotos dos alunes, e que realizou temporada em março na galeria Jayme Figura no Teatro Gamboa Nova, e que esta semana participa do evento Conferência Temática LGBTI da Defensoria Pública Estadual.

Foto: Genilson Coutinho

Para além da galeria, o projeto de EXPOSIÇÃO ITINERANTE, com 24 fotos em 12 cavaletes circulou por 13 locais da cidade, entre escolas, teatros, shopping center, faculdades, Beco dos Artistas, entre outros, superando a meta inicial de 08 locais, graças aos convites recebidos de novas participações.

E para além da linguagem fotográfica, o projeto foi inspirador para o primeiro LONGA-METRAGEM de ficção da diretora e produtora Susan Kalik, com uma narrativa que acompanha a trajetória da foto-ativista Andréa Magnoni na construção da exposição fotográfica de mesmo nome em homenagem ao tio, Renato Tita. Em meio aos depoimentos de Magnoni e de outros 12 entrevistados, em sua maioria pessoas trans, o filme também traz imagens sobre a construção da exposição fotográfica, trechos de espetáculos teatrais, performances e outras linguagens cênicas. O doc “Cores e Flores para Tita” tem previsão de lançamento em setembro deste ano.

O projeto ainda serviu de incentivo para a criação do DE TRANSS PRA FRENTE, um evento produzido por um coletivo de pessoas trans e travestis, com a proposta de oferecer oficinas de formação política e profissional, cine-debate e rodas de conversa sobre identidade de gênero, gênero e sexualidade, e que se firmou como evento calendarizado com realização mensal no Teatro Gregório de Mattos”. A próxima edição do “De Transs pra Frente” será no dia 06 de julho, com oficinas, performances e cine-debate.

 Andréa Magnoni

ANDRÉA MAGNONI/ Foto: Genilson Coutinho

Nascida em Terra Roxa, interior do Paraná, mulher cisgênera, está há 8 anos na Bahia, onde trabalha como terapeuta holística e fotógrafa, ela também faz a monitoria da exposição.

“Estar na monitoria da exposição me proporciona ver in loco a reação das pessoas diante da imensidão de vozes que compõem Cores e Flores para Tita, vozes que em maior ou menor grau são ouvidas e sentidas, clamando por respeito, humanização e justiça. Algo é fato: mesmo quem não lê nada, sai de lá mexido com a intensidade dos olhares dos retratados, olhos que nos olham onde quer que estejamos na galeria. Pessoas choram, se emocionam, pessoas fogem da “parede dos horrores” ou são atraídas a ela (instalação denúncia de quase mil nomes de pessoas trans e sua causa mortis com idades entre 12 e 38 anos de 2012 a abril de 2016), pessoas fazem orações diante dessa parede ou do altar erigido ao meu tio Renato, pessoas tentam ler o nome civil dele que está sob a minha retificação feita em vermelho. ”

Peças da exposição: foto: Genislon Coutinho

Cores e Flores para Tita é meu grande feito artístico nos meus poucos 5 anos de profissionalização, e fico feliz que ele esteja servindo mais do que apenas “embelezar” paredes, desde o começo da minha profissionalização eu me propus a não ser apenas mais uma fotógrafa, sei que minhas fotos precisam servir a algo maior, e ver isso se materializando dessa maneira é um indicativo que estou no caminho certo. Que Oyá continue fazendo seu vento forte me levar além, pois ainda há muito o que ser feito. Asè!

O projeto “Cores e Flores para Tita” foi contemplado no Edital Arte em Toda Parte e tem a produção da Kalik Produções Artísticas.

SERVIÇO:

CORES DE FLORES PARA TITA

Em cartaz até 10 de julho| sempre de 4a a domingo, das 14h às 19h

Onde: Galeria da Cidade (Teatro Gregório de Mattos. Pça Castro Alves, s/n, Centro).

Informações: (71) 3202-7800

Entrada franca

DE TRANSS PRA FRENTE

06 de julho

14h | OFICINA – II MÓDULO, com Viviane Vergueiro e Cacá Ribeiro

18h | PERFORMANCE ARTÍSTICA, com Bárbara Blend e convidados

18h30 | CINE-DEBABE “CISHETEROTERRORISMO E A CULTURA DO ESTUPRO”, com Diego Nascimento, Viviane Vergueiro e Altamira Simões.

12 e 26/07 e 02/08

16h as 19h30 | OFICINA DE TRANSPROJETOS – DA IDEIA À VI(A-SI)BILIZAÇÃO, com Chicco Assis.

O evento é no sistema pague quanto puder e que 80% da renda será destinada ao projeto Transviando o Enem.

Mais informações acesse aqui.