Estudo mostra o perfil das hepatites virais nas capitais

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3 de agosto de 2011
por Genilson Coutinho

A maior pesquisa sobre hepatites virais já realizada na América Latina revela mudanças no padrão de ocorrência dessas doenças no Brasil, com redução das infecções dos tipos A, B e C, entre 1999 e 2010. Os dados do Inquérito Nacional de Hepatites Virais, elaborado pelo Ministério da Saúde, mostram que, nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, o percentual da população que tem ou já teve hepatite (prevalência) foi de 39,5% para o tipo A, de 0,37% para o vírus B e de 1,38% para o tipo C.

De acordo com critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), a frequência de casos encontrados (chamada endemicidade) das hepatites B e C é considerada baixa no Brasil. No caso da hepatite A, varia entre intermediária e baixa. Até o momento, estimativas da OMS classificavam o país na faixa de endemicidade intermediária a alta, porém não se baseavam em estudos amplos e atuais.
“Os números encontrados no novo estudo são reflexos claros da melhoria das condições sanitárias, no caso da hepatite A, e do impacto da vacinação contra hepatite B”, avalia o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Mais de 26 mil pessoas participaram da pesquisa – 6.468 fizeram teste para hepatite A e 19.634 realizaram exames para detectar os vírus B e C. A população residente no conjunto das capitais representa 23,8% da população total do país – mais de 45 milhões de habitantes. O estudo é um retrato aproximado da prevalência das hepatites virais no Brasil.

O ministro reforçou que a população não deve compartilhar objetos cortantes de uso pessoal, como alicates, tesouras, aparelhos de barbear e agulhas de tatuagem para evitar a contaminação de doenças, especialmente a hepatites. “Hoje, é tão comum o pai querer ensinar o filho a fazer a barba e usar a sua lâmina de barbear, como também é tão comum as pessoas usarem o mesmo alicate de unhas”, ressaltou Padilha.

Durante a cerimônia, o gerente de Marketing do Clube de Regatas do Flamengo, Cláudio Fontenelle, entregou ao ministro uma camisa autografada do time, que será leiloada e os recursos revertidos à causa. Os ex-jogadores, Wilson Piazza (presidente da Federação das Associações de Atletas Profissionais), Carlos Alberto Torres, Dadá Maravilha e Jairzinho participaram do evento. Também estavam presentes à solenidade representantes de entidades e movimentos sociais de pessoas infectadas pela doença, entre outras autoridades do setor de saúde. 

Se o padrão observado nas capitais e no DF for considerado para todo o país, a estimativa de prevalência para a população brasileira geral é de 20,5 milhões de pessoas que já tiveram, em algum momento de sua vida, infecção pelo vírus da hepatite A, 800 mil pelo vírus B e 1,5 milhão pelo tipo C.

Para o vírus tipo A, participaram do inquérito pessoas de 5 a 19 anos, faixa etária em que a prevalência permite realizar inferências sobre o padrão de ocorrência da doença. No caso dos vírus B e C, participaram indivíduos de 10 a 69 anos.

Hepatite A

O estudo indica que, quanto menor o nível socioeconômico, maior a frequência de casos de hepatite A. É o que acontece nas capitais da região Norte, que apresentam a maior prevalência da doença (58,3%). “Isso mostra a influência do acesso ao saneamento, que é menor nessas capitais, favorecendo uma maior circulação desse vírus”, observa Dirceu Greco, diretor do Departamento de Doenças Sexualmente Transmissíveis, Aids e Hepatites Virais da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério.

A endemicidade é considerada intermediária nas capitais do Centro-Oeste (54,1%), Nordeste (53,1%) e no Distrito Federal (41,6%). Já nas capitais dos estados das regiões Sudeste e Sul, a frequência de casos é considerada baixa: 32,5% e 30,8%, respectivamente.

Chama atenção o dado de que, em todo o Brasil, menos pessoas estão tendo contato com a doença na infância. Nessa fase da vida, a hepatite A se apresenta como uma doença de cura espontânea, sem deixar sequelas. A redução de casos nessa faixa etária é consequência da ampliação no acesso ao saneamento básico, observado em todo o país.

“O Ministério da Saúde está atento a essa realidade e, por isso, realiza estudos de custo/efetividade, para avaliar a ampliação do uso da vacina contra hepatite A para uma parcela maior da população, até o final de 2011”, informa Greco. Atualmente, a vacina está disponível para populações específicas (ver relação completa).

Hepatite B

Nas capitais brasileiras e no DF, a prevalência da doença é 10 vezes maior nas faixas etárias mais elevadas – 0,6% entre pessoas de 20 a 69 anos e de 0,06% entre jovens de 10 a 19 anos. O dado reflete a principal forma de transmissão desse tipo da doença, por meio de relação sexual.

Além disso, a baixa frequência de casos entre crianças e adolescentes decorre da vacinação contra a hepatite B, disponível no Sistema Único de Saúde. Desde 1998, o Ministério da Saúde incluiu a vacina no calendário básico e, a partir de 2001, começou a ofertá-la para crianças e adolescentes.

“Essa é uma prova clara de que o uso contínuo dessa vacina pode praticamente eliminar a transmissão da hepatite B no Brasil, em um futuro próximo”, reforça Greco. Após as três doses preconizadas pelo Ministério da Saúde, mais de 90% dos adultos jovens e 95% das crianças ficam imunizadas contra o vírus da hepatite B.

Hepatite C

Entre as hepatites virais, a do tipo C é a que exige mais atenção, pois se os casos não forem diagnosticados precocemente, aumentam a possibilidade de agravamento da saúde dos pacientes, que passariam a ter um quadro crônico da doença.
Muitas pessoas infectadas não sabem que têm o vírus da hepatite C, doença que pode permanecer sem sintomas por até 20 anos. O diagnóstico, disponível na rede pública de saúde, só pode ser feito por meio de testes em laboratório. A descoberta tardia da hepatite C – quando os pacientes apresentam lesões importantes no fígado, incluindo câncer e cirrose hepática – é a principal causa de indicação de transplante de fígado no Brasil.

De acordo com o Inquérito Nacional de Hepatites Virais, a maior prevalência da hepatite C está nas capitais da região Norte (2,1%) e a menor, no Nordeste (0,7%). Os percentuais são semelhantes no Centro-Oeste (1,3%), Sudeste (1,2%) e Sul (0,9%).

A principal forma de transmissão é a sanguínea, por meio do compartilhamento de seringas contaminadas ou objetos que cortam e perfuram – como alicates, tesouras e agulhas de tatuagem. A hepatite C também é transmitida da mãe para o filho (durante a gravidez ou no parto) e na relação sexual sem preservativo. A transfusão de sangue não é mais um fator de risco, pois desde 1993 há controle minucioso da qualidade do sangue em relação às hepatites.

Testagem

Atualmente, os testes para hepatites estão disponíveis em todo o SUS. Em agosto, serão oferecidos também exames rápidos para os tipos B e C, nos Centros de Testagem a Aconselhamento (CTA) das capitais do Brasil. O resultado fica pronto em 30 minutos. Com testes convencionais, o resultado sai em até 15 dias. Já foram adquiridos mais de 3 milhões de testes rápidos (metade para hepatite B, metade para hepatite C) para ampliar o acesso ao diagnóstico.

Fonte:  Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais – Ministério da Saúde

Foto: Reprodução