“Esperando Godot” estreia em Salvador na próxima sexta-feira (16), no Teatro Vila Velha

No Circuito, Teatro
13 de maio de 2014
por Genilson Coutinho

Celso Jr_Foto de Leonardo Pastor

Um dos textos teatrais dos mais influentes do século 20, escrito pelo irlandês Samuel Beckett, o clássico Esperando Godot ganha encenação baiana pelas mãos do diretor Márcio Meirelles. O espetáculo estreia no dia 16 de maio, no Teatro Vila Velha, onde cumpre temporada ate 08 de junho. No dia 15 de maio, acontece uma pré-estreia, para convidados.

A montagem teatral baiana traz o texto na íntegra e lança mão de recursos tecnológicos para abordar os temas existenciais evocados pelo texto. Novas ferramentas de comunicação num mundo hiperconectado convivem como o ambiente inóspito e de desolação proposto pelo texto de Beckett.Esperando Godot, apresenta os personagens Vladimir e Estragon que aguardam, numa estrada, à beira de um deserto, perto de uma árvore, a chegada de Godot, um homem que eles mal conhecem.

Entre aborrecimentos mútuos e reflexões filosófico-melancólicas, a angústia desta espera se torna esmagadora. A monotonia é brevemente interrompida pela chegada de dois outros personagens, Pozzo e Lucky, que cultivam uma clara relação de poder entre si. Em seguida, um mensageiro chega para informar que Godot não virá naquele dia, mas garante presença no dia seguinte. Vladimir e Estragon combinam o retorno àquele mesmo ponto no dia seguinte, quando a situação de espera se repetirá.

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Nosso tempo

“Montar Esperando Godot em Salvador, em 2014, traz significados que estavam ocultos em comparação a uma montagem realizada logo após o 11 de setembro de 2001, por exemplo, ou na década de 70, durante a ditadura militar no Brasil. A cada tempo, essa personagem enigmática “Godot” recebe uma nova máscara. É isto que torna esta peça um clássico: sempre se podem encontrar novos significados para ela”, contextualiza o ator Celso Jr., idealizador do projeto.

Celso cultiva há anos o desejo de montar o texto, que ele credita como um dos pilares da dramaturgia contemporânea. Celebrado mundialmente, Esperando Godot tem resultado em montagens que atribuem à espera diferentes significados, a partir de contextos diferentes no tempo e lugar. Para além das questões existenciais, temas políticos e referentes à ordem social por vezes são destacados ou tangenciados.

“Eu acredito que estejamos apresentando umEsperando Godot que se comunique com o nosso tempo”, aposta Celso, que convidou Márcio Meirelles para assumir a direção do espetáculo: “Márcio sempre consegue ser inventivo, visualmente deslumbrante, e traz para os espetáculos uma verdade em cena que é rara”.

Márcio retribui: “Foi um convite de um cara por quem tenho a maior admiração, um ator que dá prazer em pensar em trabalhar junto”. O diretor também diz que um dos motivos que levam-no a montar um texto é o seu potencial imagético. Além, claro, do alinhamento de discursos. Neste caso, especificamente, surgiu na cabeça de Márcio a imagem das pessoas, inclusive ele mesmo, sempre nos computadores esperando mudar alguma coisa.

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Diálogo

“Vi que tinha o que dizer com Esperando Godot. Entendi como o discurso de Beckett se encaixa no meu e como posso lidar com ele, sua grandeza, sua poética, sem sair do meu caminho. Sem precisar entortá-lo para chegar em algum lugar. Seguir sua própria orientação. Gosto de seguir a orientação dos mais velhos, respeito e dá certo. Não inventei nada na encenação. Está tudo lá, no texto”, observa o diretor.

Segundo Celso, que também é dramaturgista da montagem, o diálogo com a direção foi produtivo e estimulante. Se, por um lado, Celso, que há muito estudava o texto, colocava-se na postura de preservar certos ícones ligados a ele historicamente, por outro, Márcio, que em principio não conhecia o texto profundamente, imprimiu frescor e iconoclastia à montagem.

Celso diz que desafio foi distanciar os personagens Vladimir e Estragon de uma visão – em sua opinião, equivocada – clownesca e afastá-los do mundo mendicante que já foi exaustivamente explorado em outras montagens. “Esperar Godot é permanecer no sistema em eterna reinicialização”, compara, em referências aos recursos da encenação.

Este “sistema operacional”, por exemplo, está na trilha sonora, assinada por Jarbas Bittencourt e que usa composições aleatórias, criadas randomicamente a cada apresentação, por um programa desenhado especialmente para o espetáculo. Assim, a trilha da peça nunca será a mesma: a cada apresentação, o programa gera uma nova música.

Elenco

Celso Jr. divide com Claudio Simões o desafio de interpretar os dois personagens principais de peça, Vladimir e Estragon, respectivamente. Parceiros profissionais há mais de 25 anos, eles já trabalharam juntos em 15 montagens, alternando-se como diretor e ator (Celso) e dramaturgo, diretor e ator (Claudio). Agora, vivem dois personagens que estão juntos há 50 anos – e os atores acreditam que a intimidade pessoal contribuiu positivamente para o resultado em cena.

O elenco de Esperando Godot conta com Igor Epifânio (que trabalhou recentemente com Márcio Meirelles, em Drácula), Tiago Querino (que soma com o diretor a quarta montagem e é integrante da Universidade LIVRE de Teatro Vila Velha) e Wallas Moreira, que também assina a assistência de direção.

 

Serviço

Espetáculo: Esperando Godot

Onde: Teatro Vila Velha

Quando: 16/05 a 08/06 (sexta e domingo)

Horário: 20h (sexta e sábado) e 19h (domingo)

Quanto: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia)