Especialistas temem futuro das políticas para HIV em governo conservador

AIDS em pauta, Comportamento, Social
18 de fevereiro de 2019
por Genilson Coutinho

Acho que me chamaram aqui porque eu sou testemunha ocular do início da epidemia de aids”, disse o oncologista Drauzio Varella no I Fórum de HIV e Doenças Associadas, realizado, na manhã desta quinta-feira (14), pela Sociedade Paulista de Infectologia no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.

“Lembro quando diziam nas conferências que não podíamos dar antirretrovirais para pobres, porque eles não saberiam administrar o uso. Sim, eles diziam isso publicamente. Mas o Brasil provou que a distribuição universal foi uma boa solução”, contou o médico, relembrando os percalços do Programa Nacional de DST/Aids, que desde 1996 garante a distribuição gratuita de medicamentos para o tratamento do HIV, um marco nacional na história da aids.

Varella ainda destacou a capacidade rápida de mudança da epidemia. “Com o avanço no tratamento, hoje temos outros desafios. Esquecemos da prevenção, estamos regredindo. Esse é o desafio do século 21: como vamos impedir novas infecções?”

Essa foi a pergunta que pautou o evento. Segundo o Boletim Epidemiológico, em 2017, o Brasil registrou queda de 15,7% no número de detecção de aids entre 2012 e 2017. Apesar da melhora, uma pesquisa feita entre homens que fazem sexo com homens, encomendada pelo Ministério da Saúde, mostrou que a taxa de novas detecções de HIV/aids entre jovens de 15 a 19 anos passou de 2,4 para 6,7 casos a cada 100 mil habitantes, ou seja, quase triplicou.

Além disso, o aumento de infecções como a sífilis e hepatites virais também preocupa os especialistas. Dados do Boletim Epidemiológico de Sífilis 2018 mostram que infecções do tipo aumentaram de 44,1 para cada grupo de 100 mil habitantes, em 2016, para 58,1 em 2017. Houve aumento também de impressionantes 773% nos casos de hepatite A, na comparação entre 2016 e 2017, somente na cidade de São Paulo.

“Não acho que os jovens sejam os culpados”, explicou Maria Clara Gianna, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo. “Nós é que somos os culpados por não falarmos de prevenção nas escolas.” Gianna destacou ainda a preocupante taxa de evasão escolar entre a população trans, a mais afetada pelas infecções. “Falta conhecimento entre os professores e funcionários, falta respeito no uso de nomes e pronomes adequados.”

Onda conservadora
Entre os principais problemas para tocar em assuntos do tipo no ambiente escolar, segundo os especialistas, está o aumento no conservadorismo na política. “Estamos vendo um governo que realmente pode acabar com todo o programa de aids”, ressalta a jornalista Roseli Tardelli, editora-executiva da Agência de Notícias da Aids.

“É contra esse tipo de pensamento atrasado, conservador e fundamentalista que temos que nos posicionar”, diz Tardelli, citando fala do vice-presidente, Hamilton Mourão, que nesta quarta (13) afirmou que a criminalização da homofobia, tema em julgamento no Supremo Tribunal Federal, é um “passo além da necessidade”. Tardelli relembrou ainda a polêmica demissão da médica sanitarista Adele Benzaken da direção do departamento de HIV/aids e hepatites virais do Ministério da Saúde, em janeiro. “Em um governo baseado em fundamentalismo religioso, será que a PrEP continua?”

PrEP: Ano Um
O infectologista Ricardo Vasconcelos, coordenador do programa PrEP Brasil, reforçou a importância da prevenção, com destaque para a implementação da profilaxia pré-exposição (PrEP) no SUS. Disponível gratuitamente desde dezembro de 2017, a medicação — tomada por pessoas que não têm o vírus HIV e que fazem parte da população chave — funciona como uma espécie de pílula anticoncepcional diária.

“A camisinha é ótima, mas ela tem um problema: só funciona se você usar”, alerta o infectologista. Segundo Vasconcelos, a melhor técnica para se prevenir “é aquela que o indivíduo escolhe”, lembrando as várias alternativas existentes para além do preservativo.

Desde sua implementação no SUS, a PrEP enfrenta polêmicas, já que, para muitos leigos, seu uso poderia fazer com que as pessoas abandonassem a camisinha, abrindo a porta para infecções como a sífilis. Segundo Vasconcelos, no entanto, de acordo com o projeto demonstrativo realizado entre 2014 e 2018, não houve aumento de males do tipo entre pessoas que fazem uso do antirretroviral, assim como também não houve efeito colateral significativo.

À GALILEU, Vasconcelos fez um balanço do primeiro ano da implementação da medicação no SUS: “Dá para dizer que foi um sucesso, mas poderia ter sido melhor”. Das 10 mil pessoas a serem contempladas, o programa atendeu 8 mil. “Em relação ao número de pessoas, foi muito legal, o problema foi fazer a PrEP chegar em quem mais precisa.”

Segundo ele, apesar de cada unidade federativa possuir um centro de distribuição, alguns lugares completaram o primeiro ano sem distribuir nenhum medicamento. “Foi falta de vontade política, porque pessoas interessadas existiam. Há relatos de gente que ia de Aracaju a Salvador para conseguir tomar”, explica.

Outra questão foi o perfil de quem usa o antirretroviral: “Mais de 75% dos usuários possuem mais de 12 anos de estudo, temos uma porcentagem de mulheres trans e travestis pequeníssima. Estamos dando a PrEP para pessoas que, de fato, são vulneráveis, mas tem muita gente que está fora.”

Apesar disso, a chegada do antirretroviral é comemorada como uma opção a mais de prevenção. Neste ano, mais pesquisas continuam sendo feitas, como a PrEP de longa duração, uma versão injetável da medicação que está recebendo voluntários para testes — os interessados devem mandar um email para agendamento.estudo@gmail.com.

Com quase 40 anos de epidemia, a discussão no Fórum mostrou que ainda enfrentaremos um longo caminho na resposta à epidemia de aids, menos pelos desafios científicos e mais pelo preconceito de uma doença que deixou de ser apenas uma condição médica para se tornar um estigma social, confrontado por médicos, ativistas e pessoas comuns. “É possível manter a resposta à epidemia, mas vamos precisar nos articular muito”, finalizou a coordenadora Maria Clara Gianna.

ERRATA: O email para se voluntariar para estudos foi corrigido às 12h17 de 15 de fevereiro de 2019.