Escritores baianos lançam livros de contos e poesia pela P55

No Circuito
23 de setembro de 2014
por Genilson Coutinho

Capa Marcio Matos

Com amor consegue-se viver mesmo sem felicidade”. De autoria do russo Fiódor Dostoiévski, a epígrafe do novo livro de Márcio Matos, “A noite em que nós todos fomos felizes”, é a chave para se entender o espírito da obra. Sete contos compõem a publicação, mais uma da coleção Cartas Bahianas (P55 Edições), e em todos prevalece a busca pela invenção de mundos e sentidos particulares, que servem ao autoengano das personagens. Já em “São Selvagem”, quinto livro de poemas de Kátia Borges, que integra a mesma coleção e será lançado na mesma noite, 30 de setembro, 19 horas, na Confraria do França, Rio Vermelho, o tom é dado pela saudade e por reflexões líricas em torno da morte, da vida, da amizade e da poesia.

Ivan, do conto de abertura do livro de Márcio (“Devotos”), é um quarentão cujos “delírios de artista” tentam “dar dignidade a sua tara”. A citação a outro escritor russo, Vladimir Nabokov, é direta: o protagonista desenvolve uma relação lasciva com a ninfeta Marianinha. Sem amor, mas com toques de perversão religiosa, os dois empreendem uma jornada de desencanto e expiação. Desencanto também é o mote do conto que dá título ao livro, mas, em “A noite em que nós todos fomos felizes”, são as invenções da memória que servem de biombo para a negação da realidade.
Em “São Selvagem”, Kátia Borges intercala poemas densos, que traduzem a perda de um grande amigo, o santo selvagem do título, morto em janeiro deste ano e a quem o livro é dedicado, a versos que brincam com o real, aproximando amor, humor e dor. O fazer poético, com tudo aquilo que o envolve, o processo criativo e sua recepção, bem como a amizade, e suas nuances, assomam em versos que provocam o leitor, e o convidam a pensar sobre a finitude e a beleza, espaços atemporais e próximos que embaralham os meses. “Há dois segundos de janeiro em cada século de março.\\O tempo em sua voz, fio de cobre fino a desafiar a esperança”.
Se o amor inventa felicidade, “mentiras sinceras contentam o coração”. Márcio Matos parte deste enunciado para desenvolver a narrativa de outros três contos. Em “Mormaço”, os desconhecidos que protagonizam a história decidem permanecer clandestinos para que a experiência não assuma outra potência. Em “Uma pessoa melhor”, Hermes é lobotomizado para acreditar na felicidade plena dos manuais de autoajuda e, mesmo tendo lido Dostoiévski (olha ele de novo), acaba sucumbindo ao “palavreado exorbitante de Mister Morrison”, guru que recicla o bla bla bla pseudo-motivacional das dinâmicas de programação neurolinguística. “Dínamos” também parte da pretensão de se administrar a rotina “como uma planilha de Excel” para, numa reversão súbita, mostrar que a fúria e o caos da vida são incontornáveis, e que a qualquer momento podemos tombar numa ribanceira.
Para dar voz a essas impressões, o autor escolhe personagens femininas que ora resvalam para o completo desvario (a ‘Yoko Ono’ de “Mentiras sinceras contentam o coração”), ora sucumbem ao cinismo. É o caso de Laura, protagonista do conto “Avant-Garde”, aquela cujo “sorriso se regenera” quando “ela vislumbra o tempo em que se perceberá ainda mais turva”. O exótico estoicismo da personagem reforça o espírito farsesco do livro, condensado na epígrafe do escritor de “Crime e Castigo”.
Também a desmedida parece atravessar os quarenta poemas de “São Selvagem”. Neles, a incerteza desenha formas na parede da memória e a beleza reside justamente em não se conseguir enxergar o futuro com clareza. O tempo é a medida de todas as coisas e ele apenas zomba. “Saturno cofiando a barba, moderno de sofrer, e o passado, esta hóstia\\ Confessemos, então, que nos anima agora até mesmo que chova.\\Fizemos uma horta neste terreno\\ Sim, fizemos uma horta neste terreno a que chamam coração”. O lirismo aqui se ergue como exercício e pausa. Afinal, vivemos todos numa correria louca e sem sentido, ou em busca de sentido.
Autores da moderna cena literária de Salvador, Márcio e Kátia comungam de uma mesma marca: o lirismo pop. Sem descuidar do trato com a linguagem, os dois escritores mantém forte conexão com o universo da música, do cinema e da literatura beatnik, evocando Allen Ginsberg, Beatles e Lou Reed. Márcio estreou na literatura em 2010, com o romance “A suave anomalia” (Casarão do Verbo), obra que disseca o comportamento da família tradicional. Escritora, jornalista e professora,Kátia tem entre as suas publicações os livros de poesia “De volta à caixa de abelhas” (2002, Selo As Letras da Bahia), “Uma Balada para Janis” (2010, Edições P55) e “Ticket Zen” (2011, Escrituras).
Com os livros de Márcio e Kátia, a coleção Cartas Bahianas, da editora P55, atinge a marca de 42 obras publicadas. Projeto que promove a literatura contemporânea da Bahia, a série, coordenada pelo escritor e dramaturgo Claudius Portugal, aposta na multiplicidade de estilos e gêneros e na disseminação da cultura livreira a preços mais acessíveis.

Serviço
O que: Lançamento dos livros “A noite em que nós todos fomos felizes”, de Márcio Matos, e “São Selvagem”, de Kátia Borges.
Quando: 30 de setembro de 2014, das 19 às 22h.
Onde: Confraria do França (antigo restaurante Extudo), Rua Lydio de Mesquita, n. 43, Rio Vermelho (Salvador/BA).
Contatos dos autores: Márcio Matos (71 9123-8381) / Kátia Borges (71 9972-9562)
Ficha Técnica dos livros
“A noite em que nós todos fomos felizes”: autor Márcio Matos, 48 páginas, preço R$ 15*, P55 Edições.
“São Selvagem”: autora Kátia Borges, 48 páginas, preço R$ 15, P55 Edições
(*) Para a noite de lançamento, os dois livros juntos serão vendidos pelo valor promocional de R$ 25.