Empresas verdes: inclusão social faz parte da “questão da sustentabilidade” Por João Barreto

Genilson Coutinho,
09/05/2011 | 09h05

Você, a essa altura, já deve ter ouvido alguém falar sobre a “questão da sustentabilidade”. Mas afinal o que é a tal “questão da sustentabilidade”? Para início de conversa, o que você tem que saber é que se alguém se refere à responsabilidade socioambiental como a “questão da sustentabilidade”, muito provavelmente, esse alguém não faz ideia do que está falando. E não, ser sustentável não é usar papel reciclável e plantar árvores, é bem mais complexo do que isto.

A sustentabilidade ou responsabilidade socioambiental diz respeito à melhora da qualidade de vida de uma população, levando-se em consideração os impactos ambientais daquela população e promovendo a equidade social. À união desses aspectos se convencionou chamar de economia verde. Uma economia verde leva em consideração a humanidade e o meio ambiente em relação de simbiose e inclusão. O homem é considerado como elemento do ambiente, logo preservar o ambiente e reduzir o impacto ambiental da sociedade é preservar a  prosperidade das gerações futuras. Nesse contexto, a economia é considerada parte da relação do homem com esse mesmo ambiente e deve ser conduzida de maneira ética. Uma economia verde sempre considera a viabilidade e os impactos das ações no longo prazo e respeita a dignidade da vida humana e os ecossistemas.

Uma ideia que define bem a teria por detrás do conceito de economia verde é a de que devemos atender às necessidades das presentes gerações, de forma justa e igualitária, sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Essa delicada relação de interdependência entre diversos aspectos da vida social também inclui em sua equação a qualidade de vida. Isto porque a qualidade de vida da população atual, incluindo aí acesso a educação e cultura, tem implicações diretas no desenvolvimento dessa população e de seus descendentes.

Infelizmente para alguns, a economia verde é uma moda e, para estar na moda, muitas empresas têm se intitulado “verdes” sem o serem. Ser uma empresa “verde” ou socioambientalmente responsável consiste também em considerar a qualidade de vida de seus colaboradores e funcionários, o que vai desde cumprir as leis trabalhistas e pagar o imposto de renda corretamente até construir um ambiente de trabalho inclusivo e favorável à diversidade de etnias, gêneros, inclinações religiosas e culturais, e orientações sexuais. O meu argumento é simples: não há qualidade de vida dentro do armário, logo uma empresa que se diz “verde” ou socioambientalmente responsável e que não possui uma política clara de inclusão dos seus funcionários LGBT, claramente não é uma empresa verde de forma alguma.

De cabeça, eu posso enumerar pelo menos quatro empresas/marcas que possuem políticas agregadoras e estendem os benefícios de seus funcionários heterossexuais aos seus funcionários homossexuais, bissexuais e transexuais, tais como direito a pensão e previdência, plano de saúde, etc. São todas, infelizmente, estrangeiras: Facebook, Google, o Banco Santander e a Pixar. O Facebook, o Google e a Pixar participaram inclusive da iniciativa It Gets Better, gravando vídeos nas quais funcionários LGBT mandam mensagens encorajadoras para adolescentes LGBT, potenciais vítimas de bullying.

O Santander, em 2006, criou uma carteira imobiliária para financiamento de casa própria para casais de mesmo sexo além de estender benefícios previdenciários, convênio médico e odontológico aos seus funcionários. O Facebook é um caso muito específico porque, embora seja gay-friendly e tenha um ambiente de trabalho diverso e informal, usa uma matriz energética poluente – termelétrica – para alimentar as suas bases de dados, logo não pode pleitear a reputação de empresa verde, figurando entre as empresas menos sustentáveis no último relatório do Greenpeace. Embora o Brasil seja privilegiado no quesito geração de energia, pois a maior parte da nossa matriz energética é limpa – energia hidrelétrica -, por enquanto, as marcas nacionais parecem ter receio de atrelar sua imagem ao público LGBT, mesmo quando possuem políticas efetivas.

As empresas e os meios de comunicação precisam atentar para o fato de que cuidar dos funcionários LGBT também é uma obrigação para ser sustentável pois é um investimento em qualidade de vida e na melhoria da cultura da diversidade, sem a qual não funcionaríamos como sociedade e estaríamos todos fadados a voltar a nos balançar em árvores e correr do trovão. Falta conhecimento desses aspecto também na cobertura dos principais veículos de comunicação e nós, enquanto povo, precisamos ficar atentos às informações que nos são passadas como “verdades absolutas”.

Confira no link um mau exemplo de cobertura da agenda sustentável: uma relação de empresas-“modelo” de sustentabilidade no Brasil. A agenda LGBT nem é citada.  Será medo por parte das empresas de terem suas marcas atreladas ao público LGBT? Será desinformação por parte dos meios de comunicação? Ambas as opções. Outra coisa que devemos começar as nos perguntar: devemos consumir produtos de empresas que não se sentem obrigadas a incluir políticas afirmativas em suas estratégias de governança? Acho que não…

Foto: Reprodução