Eles existem e resistem: a história de LGBTs que ocupam os campos e as arquibancadas

Notícias
21 de novembro de 2019
por Genilson Coutinho

Do 90 minutos 

Somos brasileiros e o futebol é uma de nossas paixões nacionais, não há como negar. Desde cedo somos incumbidos a herdar o time da família e, geralmente, nosso primeiro contato com o esporte acontece ainda na infância, através do simples ato de chutar uma bola ou por algo grandioso, como a primeira ida a um estádio. Para alguns de nós, contudo, a relação com o futebol se torna mais difícil com o passar do tempo. Pouco a pouco entendemos seu lado austero e nocivo, pouco inclusivo àqueles que não se encaixam no que é padrão. Motivo de piada nas arquibancadas e ‘invisíveis’ dentro das quatro linhas, gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros apaixonados pelo esporte se perguntam: eu pertenço a este lugar? É hora de dar voz a essas pessoas, que existem, resistem e não se deixam abater pelo preconceito.

Quando você ama um clube, sua camisa se torna uma segunda pele e seu estádio se torna uma segunda casa. Poder pisar na arquibancada e se sentir como parte de algo maior é uma experiência única. Mas esse acolhimento e sensação de unidade nem sempre fazem parte da realidade de torcedores LGBTs, dos quais são negados, com certa frequência, os direitos básicos de ocupar as arquibancadas e torcer pacificamente pelo time que amam. A história de Yuri e Warley, torcedores do ​Cruzeiro, ilustra isso: um simples abraço pós-jogo virou motivo de piada nas redes sociais e grupos de torcedores, através de um vídeo gravado e viralizado sem consentimento e conhecimento deles.

Falando com exclusividade à ​90min, Warley detalhou o triste episódio e admitiu ter temido pela segurança deles, mas que ambos tiraram uma lição importante da situação“Vários amigos começaram a mandar prints de fotos e vídeos nossos no estádio. Esses prints eram de grupos de Whatsapp de torcidas organizadas tanto do cruzeiro quanto do Atlético, além de páginas do Facebook e Instagram. Ficamos estáticos e com muito medo. Esse caso acabou nos juntando e fortalecendo ainda mais o nosso propósito, que é de fazer o máximo possível para que nenhuma pessoa mais passe pelo que passamos, mostrar que ninguém está sozinho, que unidos podemos bater de frente contra qualquer hipocrisia”, contou.

Com o acirramento dos preconceitos e casos de violência direcionados a grupos minoritários, testemunhamos também uma maior organização destes nas arquibancadas. Há inúmeros coletivos criados e espalhados pelo território brasileiro, como Tribuna 77 (Grêmio), Resistência Tricolor (Fortaleza), Palmeiras Livre (Palmeiras) e outros idealizados com intuito específico de abraçar a população LGBT de arquibancada, como o Torcida LGBTricolor, do BahiaCriar um lugar seguro para que essas pessoas possam torcer, vibrar e existir sem serem expostas a constrangimentos, como Yuri e Warley foram, é a missão.

Conversamos com um de seus idealizadores, Onã Rudá, que nos revelou a maior motivação para o desenvolvimento deste projeto“O que nos motivou é a ausência. Nós não estamos lá, nós não podemos frequentar esse espaço. Estamos em número reduzido entre os sócios, nós não estamos entre os conselhos, não existimos nas diretorias, tampouco nas presidências dos clubes. Só que isso é trágico quando a gente olha pro estádio e percebe que a gente também não está no meio da torcida, no povão (…) Nós estamos de fora disso e lutando para entrar nesse ambiente, se ver ali dentro. Um dos desafios de ser torcedor LGBT tem a ver justamente com essa percepção de pertencimento daquele espaço”, detalhou.

Para muitos, o amor pelo futebol não se manifesta apenas na identificação com um clube e na rotina de arquibancada, mas também na própria prática esportiva. Nas várzeas e nas quadras espalhadas pelos quatro cantos do país, temos gays, lésbicas e transgêneros jogando bola e fazendo do futebol uma rede de apoio/solidariedade, além de um objeto de transformação social. Nós do ​90min conversamos com dois representantes de equipes LGBT+ amadoras, e traremos para você, leitor, um pouquinho de suas histórias a seguir:

DiversusFC: Com base em São Paulo, o DiversusFC, time que preenche a foto que inaugura este trecho do artigo, foi criado em 2017 com o objetivo de ser um espaço inclusivo à população LGBT, especialmente das periferias: “O Diversus é um time muito acolhedor, muito família e dá oportunidade para todo mundo, porque essa é a intenção do time, a inclusão. Já passamos por algumas situações, especialmente em torneios héteros em que competimos… Uma vez a gente jogou contra um time e a gente percebia que havia um desdém, sequer olharam na nossa cara, sequer nos cumprimentaram (…) O que falta mesmo são os pais conscientizarem dentro de casa o que é a diversidade, o que é a identificação de gênero, o que é o amor. As pessoas são amor, independente do que elas gostam e independente do que elas são, e merecem respeito”, afirmou Mohamad Ludgério, jogador da equipe.

DandaraFC: Representante de João Pessoa-PB, o Dandara abraça meninos e meninas LGBTs e tem atuação/envolvimento social bastante importante: “O Dandara passou de uma reunião de cinco ou seis amigos LGBTS para um coletivo forte e seguro para a prática do esporte (…) No início às vezes sofríamos com algumas piadinhas homofóbicas de pessoas que não tinham coisa melhor para fazer mas, juntos, nunca levamos a cabo. Nessa jornada já participamos de torneios, fizemos um torneio beneficente onde tinham times mistos, outros só de mulheres, só de lésbicas, só de homens trans, e o arrecadado em alimentos e produtos de limpeza foi doado”, nos contou Tamyra, co-fundadora da equipe.

Os circuitos de torneios amadores LGBTs estão cada vez mais amplos e organizados, sendo a Champions Ligay um dos principais expoentes disto. Criada em 2017, a competição tem caráter nacional e reúne diversas equipes oriundas de todas as regiões do Brasil, mudando de sede a cada novo ano. A edição de 2019, programada para acontecer entre os dias 15 e 16 de novembro, será em Belo Horizonte e contará com a participação de 28 times, o que presume envolvimento direto de aproximadamente 600 atletas.

De acordo com números recentes (2018) fornecidos pela Confederação Brasileira de Futebol, temos mais de 22 mil contratos profissionais assinados no futebol masculino. Considerando apenas as Séries A, B e C do Brasileirão, temos, em média, 1800 jogadores em atividade na temporada atual. Mesmo em meio a este amplo universo, não conhecemos um caso atleta assumidamente homossexual. A explicação para esta falta de ‘representatividade’ é simples: toda a estrutura nociva e excludente que dissecamos nos parágrafos anteriores intimida quem não se encaixa no padrão.

Para o senso comum, o homem que joga bola precisa ser forte, viril e outros tantos adjetivos que não estão ligados à homossexualidade, vista como um ‘desvio de masculinidade’. O temor de retaliação das arquibancadas, dos vestiários, de dirigentes e patrocinadores faz com que muitos atletas profissionais jamais se assumam gays ao longo de suas carreiras, sendo esta uma das maiores violências que atinge a população LGBT em qualquer espaço que ocupa: a obrigação de negar sua essência para conseguir sobreviver e/ou prosperar.

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