Eleições: Presidente do GGB na corrida por uma vaga no legislativo; confira a entrevista

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24 de agosto de 2016
por Genilson Coutinho

Abrimos a  nossa série de entrevista com os candidatos LGBT à Câmara de Vereadores de Salvador, tendo como primeiro convidado o professor e presidente do GGB, Marcelo Ferreira de Cerqueira filiado ao (PSB).

Licenciado e Bacharel em História pela Universidade Católica do Salvador, atual presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), professor, pesquisador, jornalista,  fundador do Grupo Quimbanda Dudu de Negros LGBTs, Centro Baiano Anti-Aids, Associação das Prostitutas da Bahia (APROSBA, Associação de Travestis de Salvador (Atras). Como gestor público foi Diretor do Departamento de Gestão Ambiental da cidade de Lauro de Freitas (2004-2007), Diretor do Serviço de Atenção Especializada (SAE) e Diretor do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) de Lauro de Freitas (2007 – 2011).

Atualmente é Assessor Parlamentar da deputada Fabíola Mansur (PSB),  Conselheiro do Conselho Estadual do Desenvolvimento Econômico do Governo do Estado da Bahia (CODES), Conselheiro do Conselho de Turismo do Estado da Bahia e do Comitê Gestor de Internet do Brasil (CGI.Br) e Comendador da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura, comenda recebida em 2012 em São Paulo.

DOIS TERÇOS: Como nasceu o desejo de se candidatar?

MARCELO CERQUEIRA: A militância política e social sempre insiste em nos conduzir um pouco mais adiante, até porque há sempre lutas a serem travadas em defesa das minorias. Hoje, tenho convicção de que o parlamento é um ambiente político ideal para todos aqueles que querem reverberar seu ativismo. É um espaço que me permitirá pressionar os poderes públicos, especialmente o Executivo, a cumprir a legislação no que toca aos direitos das minorias, além de permitir maior visibilidade à luta contra o racismo, a LGBTfobia e o machismo.

DOIS TERÇOS: Qual a importância de um representante LGBT no legislativo municipal?

MARCELO CERQUEIRA: O movimento de defesa dos direitos LGBT’s avançaram bastante no Brasil, apesar da insistência de alguns que não toleram a existência de um amor não heterossexual. É uma lástima. Na Câmara de Vereadores, será possível criar mais mecanismos de defesa dessa população e dar maior visibilidade a esta luta. No parlamento, teremos também instrumentos para organizar esta comunidade e avançar na cobrança de nossos direitos junto ao Poder Executivo. O meu ativismo me capacitou para que agora eu possa fazer Leis.

DOIS TERÇOS: Você traz uma experiência muito grande na militância LGBT baiana. O que você pensa em trazer dessa vivência para câmara?

MARCELO CERQUEIRA: De fato, são décadas dedicadas quase que exclusivamente à causa LGBT, enfrentando riscos até de morte, já que ser gay no Brasil ainda significa correr este tipo de risco, infelizmente. Da tribuna da Câmara, uma denúncia ganha muito mais eco; da tribuna da Câmara, você alcança muito mais pessoas que alcançaria na militância que vimos fazendo, que já tem sido gloriosa, mas sabemos quantas pessoas ainda precisam de um apoio político e institucional para verem-se livres da opressão diária. A Câmara será aquele espaço privilegiado de ter voz e dar voz a quem não tem. Como já disse antes, não queremos “homossexualizar” Salvador, queremos fazer de Salvador a capital brasileira dos direitos humanos. Nosso mandato quer contribuir para que nossa cidade alcance este status.

DOIS TERÇOS: Quais são suas prioridades se for eleito vereador em Salvador?

MARCELO CERQUEIRA: A prioridade absoluta é demonstrar à sociedade baiana, soteropolitana, que é possível um convívio harmônico entre os diferentes. É prioridade consolidar projetos já realizados por parlamentares que me antecederam, como da hoje deputada Fabíola Mansur que, quando vereadora, deu enorme contribuição ao debate sobre direitos humanos. Vou buscar a cada dia do mandato dialogar com as pessoas, fazer do gabinete uma espécie de sede das minorias. Ouvir muito, conversar muito e criar leis que possam aperfeiçoar nossa legislação no que tange aos direitos de gays, negros, mulheres, pessoas com deficiência. A prioridade moral é esta: fazer do mandato um instrumento coletivo contra qualquer forma de opressão.

DOIS TERÇOS: Cite alguns projetos que você deseja levar à Câmara. Um vereador gay poderia ajudar na luta contra o preconceito? Como?

MARCELO CERQUEIRA: Não tenho a intenção de ser um vereador-personalidade, que cultive aquela prática daninha e tão fora de moda de achar que pode resolver tudo sozinho. Como já disse, tenho em mente muitos projetos, inclusive de leis, para melhorar o relacionamento humano em Salvador. Mas não gostaria de repetir os erros daqueles que não construíram coletivamente as pautas do mandato. Nenhum projeto pode ganhar vida sem que tenha assumido antes como pauta coletiva, como demanda da coletividade. Eu ficaria feliz se pudesse dar o sentido máximo do que significa ser um representante popular, ou seja, exercer a democracia indireta. Vou ouvir muito, para errar menos e consolidar um modelo de mandato verdadeiramente popular. Aliás, é a única forma como sei existir.

DOIS TERÇOS: Você acredita que será eleito apenas com os votos dos LGBT’s?

MARCELO CERQUEIRA: Nem pretendo! Minha luta é em defesa da solidariedade, pela cultura, pela saúde, pela educação, pela mobilidade urbana, pela valorização das pessoas das favelas, pela garantia do direito de mulheres, negros e LGBT’s frequentarem universidades, ganharem expressão social e exercerem na plenitude o direito à felicidade. Meu projeto, que na verdade é coletivo, inclui homens, mulheres, crianças, jovens e idosos. A cidade ficará melhor para todos se houver mais tolerância. Quanto menos violência, mais qualidade de vida geral. Então, sei que terei o voto de heterossexuais que compreendem a importância do direito ao amor, que sabem que qualquer maneira de valor a pena. Salvador pode se tornar uma cidade com muito mais cultura, muito mais saúde. E eu te pergunto: só a comunidade LGBT lucraria com uma cidade melhor? Não. Todos lucrariam, todos ganhariam.

DOIS TERÇOS: Adoção, casamento homoafetivo e criminalização da homofobia estão na ordem do dia da comunidade LGBT. E no seu projeto?

MARCELO CERQUEIRA: Esta é a luta nossa de todo dia. O sagrado direito à felicidade. O direito de ser o que é, em sua inteireza, sem nenhum tipo de restrição, de nenhuma natureza. Vamos aprofundar todos esses temas na Câmara Municipal, tirar o véu de preconceito que encobre temas tão banais mas tão fortemente cercados de discriminação. A luta é pela justiça social, o que inclui os temas que você elencou acima, e que são bandeiras históricas dos movimentos sociais organizados, inclusive do GGB, e tantos outros. Repito: precisamos fazer de Salvador a Capital da tolerância, do respeito. Salvador pode, sim, ser a grande capital dos direitos humanos.

Semanalmente o site Dois Terços apresentará entrevistas com candidatos a vereador de Salvador. A ordem de apresentação das entrevistas atende o ritmo de resposta dos candidatos.