‘Ele tirou a camisinha em segredo’ – pessoas contam sobre quando sofreram ‘stealthing’

AIDS em pauta, Notícias
28 de fevereiro de 2020
por Genilson Coutinho

VICE Brasil

Às vezes, dar nome para alguma coisa ajuda a iluminar a questão. O termo “stealthing” – onde alguém secretamente remove a camisinha que está usando durante o sexo – não é muito usado, mas você provavelmente conhece alguém que já passou por isso: um estudo australiano descobriu que 18% das mulheres e 4% dos homens já foram vítimas disso, com apenas 1% dessa amostra tendo dado queixa na polícia.

Enquanto não é tecnicamente ilegal na maioria do mundo, essa é uma forma de agressão sexual – o perpetrador está obrigando a vítima a fazer algo que ela não consentiu – e tribunais já condenaram “stealthers” na SuíçaAlemanha e Reino Unido, enquanto o fundador do Wikileaks Julian Assange foi acusado de cometer o crime na Suécia (o caso foi arquivado no final de 2019).

As consequências do stealthing podem ser físicas – como DSTs ou gravidez indesejada – mas também psicológicas, com muitas pessoas relatando vergonha e culpa. Falei com seis vítimas de stealthing – com algumas dizendo que dar um nome ao ato as ajudou a reconhecer o que aconteceu.

Alerta de gatilho: este texto contém descrições explícitas de ataque sexual.

Avaar*, 26 anos, trabalha com mídia, Amsterdã

Quando tinha 20, fiz sexo com um cara que conhecia da minha cidade natal. Não éramos amigos, mas frequentávamos nos mesmos círculos. O convidei pra minha casa e começamos a nos beijar. Depois de um tempo, surgiu a questão de quem ia ficar por cima. Eu só tinha uma camisinha em casa, então ofereci a ele. Ele sugeriu fazer sexo sem, mas eu disse não. Quando começamos a transar, ele parava toda hora para “arrumar a camisinha”. Perguntei algumas vezes se ele tinha tirado, e ele disse que não. Continuamos por um tempo e, quando me deitei, senti algo estranho nas costas. Era a camisinha.

Ele riu e disse: “Ops! Deve ter saído”. Fiquei enojado. Perguntei quanto tempo ele estava sem, e ele disse que não sabia. Perguntei se ele tinha alguma DST e ele ficou agressivo, gritando: “Você acha que sou sujo? Eu teria parado se soubesse que tenho alguma coisa. Estou ofendido que você esteja duvidando de mim”. Honestamente, eu não sabia o que dizer, e só pedi pra ele ir embora. Ele me disse pra esquecer e prometeu ficar com a camisinha da próxima vez. O ignorei. Quando estava saindo, ele me chamou de “drama queen”. Fiquei com nojo. Entrei no chuveiro e me limpei obsessivamente por horas. Depois disso, marquei uma consulta pra fazer um exame de DST.

No dia seguinte, contei a história pra uma amiga na hora do almoço. Ela não ficou tão chocada quanto eu, e disse que eu estava sendo dramático. Acabei me convencendo de que não era um problema e nunca contei pra mais ninguém. Acho que na comunidade gay, tem essa expectativa de que você deve tomar cuidado, mas também uma filosofia de “Se você é gay, pare de reclamar e faça sexo de qualquer jeito”.

Mona*, 28 anos, diretora, Nova York Ele era inglês, muito educado. Chegamos na casa dele e ele me ofereceu uma xícara de chá, que serviu numa chaleira com biscoitos. Ele não conseguia ficar de pau duro. Insisti pra ele usar camisinha. Por mais educado que ele fosse, eu sabia que ele transava por aí, e não queria ter que procurar um médico. Estávamos embaixo dos lençóis e ele rolou pra cima de mim – o problema dele tinha magicamente se resolvido – então, depois de um minuto, fiquei preocupada e perguntei se ele estava usando a camisinha.

Ele sorriu todo inocente e disse: “Não é melhor assim?”. E a resposta é sim, também não gosto de camisinha. Mas a resposta também foi: “Já ouviu falar de gonorreia? Herpes? HPV? Chato? Não ouviu falar da crise de AIDS? Você sabe de onde vêm os bebês? Ninguém te ensinou respeito? Sei que você tem educação, mas onde você deixou ela quando enfiou seu pau desembalado no meio das minhas pernas? Você deixou o respeito na chaleira?”.

Foi a primeira vez que ouvi o termo “stealthing”, e não gosto dele. Acho que não captura a seriedade do ato. Parece um truque de mágica, não a violação desprezível e oportunista que é. Talvez seja melhor chamar a coisa pelo que realmente é: agressão sexual.

*Os nomes foram mudados para proteger a identidade dos entrevistados.

Matéria originalmente publicada pela VICE Áustria.

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