Comportamento

HIV em pauta

Social

Ele descobriu HIV aos 59 anos; como é a vida de um idoso com o vírus?

Genilson Coutinho,
10/04/2020 | 17h04

O antropólogo José, de 64 anos, acompanhou de perto a epidemia da aids nos anos 1980. Bissexual, ele conta ter perdido amigos para a doença que, na época, avançava de forma rápida. “Para quem viveu o período como eu, é impossível não desenvolver medo de ser infectado”, afirma José, que pediu seu verdadeiro nome não ser revelado na reportagem.
Após terminar um longo casamento com a ex-esposa, ele passou a se interessar mais por homens e ter um número maior de parceiros. Porém, por saber dos riscos de IST, mantinha suas relações sexuais seguras.
As coisas mudaram quando ele iniciou um relacionamento sério, aos 59 anos. Apesar de ele e parceiro não realizarem testes, José confiava no namorado e o casal passou a transar sem preservativo. “Infelizmente, não sabia que ele saía com outros homens e acabei contraindo o vírus. Quando descobri, entrei em uma depressão profunda”, lembra.
Diagnóstico não é sentença de morte, mas é necessário cuidar do corpo e da mente.


Sem sintomas, José só descobriu que era soropositivo por ter sofrido uma toxoplasmose, infecção causada por um parasita que pode afetar vários órgãos. “Quando a doença é diagnosticada, os médicos geralmente buscam se existe um motivo para uma queda de imunidade. No caso de José, foi uma coincidência termos descoberto. Os exames mostraram que ele tinha acabado de contrair o vírus HIV”, aponta o infectologista Rico Vasconcelos, médico de José e coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).
Para o paciente, a parte mais difícil não foi controlar o quadro, e sim aceitar que teria de conviver com o HIV. “Meu mundo caiu. Achei que minha vida tinha acabado e que não conseguiria suportar viver com isso”, conta.
“Eu me isolei de todos, não conseguia nem sair da cama. Para mim, o HIV ainda era um bicho de sete cabeças”
Conforme explica Vasconcelos, a sorofobia —nome dado ao preconceito com pacientes que têm o vírus — não só é comum na sociedade, como também entre os próprios portadores. “As pessoas enxergam o HIV como a doença do outro —coisa de quem faz coisa errada, é promíscuo.