É a religião a grande culpada pela homofobia? Por João Barreto

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13 de setembro de 2011
por Genilson Coutinho

Começa com uma pergunta simples: a saber, de onde vem a homofobia? Viria da religião? Essa grande detentora de códigos e interpretações morais rígidas, pautadas por comportamentos milenares de sociedades específicas…

Creio que a religião, especialmente as fundamentalistas são culpadas, hoje, sim, mas não são a origem. A origem do preconceito é mais antiga e a religião, especialmente as neopentecostais, em franca ascensão na Bahia, se adequam à uma tendência preconceituosa no próprio ser humano.

As religiões ocorrem naturalmente na maioria das sociedades. Funcionam como ordenadoras da sociabilidade e funcionam também como forma de manifestação da espiritualidade. Quanto menos científica é uma sociedade, mais ela tende a explicar a natureza e seus fenômenos através de enredos fantásticos que apresentam relações causais pautadas pelo sobrentural. Alguns estudos (houve um publicado na TheEconomistde 11 abrildesteano) que lança a seguinte hipótese: que as religiões advém e se alimentam da capacidade colaborativa do Homo Sapiens e funciona assim para ordenar a sociedade segundo critérios aleatórios mas que parecem funcionar para cada grupo de acordo com particularidades culturais. Assim, critérios do que é bom e do que é ruim são elaborados e são vistoriados com frequência.

Religião é uma forma de significar a existência cotidiana: oferecendo manuais éticos, morais, e é também estruturadora de tipos de sociabilidade. Acontece que, como em toda manifestação cultural humana (e religião é da esfera da cultura), há diferentes níveis de adesão e de manifestação: dos menos aos mais radicais. Religiões fundamentalistas levam a ideia de manual ético e de interpretação pedagógica da realidade ao extremo da escala, funcionando assim de modo equivalente a uma neurose ou a uma patologia social, visto que engessam a sociedade e o pensamento.

Mas não duvide, a religião é uma manifestação natural de vontades sociais e se assemelha, no aspecto significar à realidade, ao nosso hábito de produzir e consumir ficções para preencher a nossa existência, distendê-la e, quem sabe, viver um pouco mais através das histórias. Observe que toda religião oferece um enredo em uma cosmogonia, que dão significado à existência humana. A possibilidade de sermos meras reações químicas ao acaso no universo é de natureza científica e estabelece firmemente uma descontinuidade na existência do ser individual, focando na vida como um parâmetro geral. Nas religiões, pois, somos únicos e singulares. Na ciência, somos mais um fenômeno extravagante em uma biblioteca de fenômenos extravagantes. Isto basta para os céticos, cientes de sua própria finitude.

Entendo as histórias por trás dos rituais religiosos, portanto, como ficções – coisas feitas – reencenadas através daqueles rituais. E, por ser rituais e modos de interpretação da realidade acabam por tornar-se as grandes vilãs mediáticas. Comofoidiscutidoaqui, o jornalismo precisa de enquadramentos para discutir a vida, o universo e tudo o mais. E o enquadramento religião x população LGBT é bastante prolífico porque estabelece vítimas e algozes. Nossas histórias mais básicas – veja o enredo da cosmogonia cristão, por exemplo – são pautadas por vítimas e algozes.

Mas anteriormente às religiões, sendo essas produtos da cultura, nós tivemos primeiro o hábito de nos agregarmos em grupos sociais, onde as religiões puderam proliferar. E, embora, a seleção atendesse a critérios aleatórios de semelhança e dessemelhança, certamente características de natureza reprodutiva, com o propósito de perpetuar a espécie e fazer manutenção do grupo social devem ter sido preferidas.

O sexo homossexual, embora não sirva à manutenção da espécie, é uma estratégia de sociabilidade comum em muitas culturas, independentemente do grau de desensolvimento científico delas. Por alguma razão, os autores do maior livro de ficção da história, a Bíblia, preferiram o sexo heterossexual. Não porque as demais opções e oportunidades não existissem. Na verdade, há muita controvérsia se a Bíblia sequer condena a homossexualidade, visto que as traduções que nos chegaram não são as melhores e muita coisa foi alterada por conveniência das instituições religiosas que foram donas da exegese e hermenêutica bíblica nos últimos séculos. Sendo assim, só podemos saber que… nada sabemos sobre a Bíblia e a homossexualidade.

Anterior à Bíblia e às religiões estivemos nós, vivendo em sociedade e fazendo escolhas sociais que repercutiram na cultura. Porque gostamos de alguém e porque não gostamos de alguém é aleatório. Com uma certa regularidade, os mecanismos de identificação funcionam por afinidade e completude. Amamos o que nos é belo porque nos lembra a nós mesmos ou amamos o que nos completa porque somos criaturas sociais, produtoras de conhecimento e de cultura. De modo análogo, a preservação de uma estrutura social depende daquilo que não amamos, que desgostamos e que detestamos. O outro, o que é diferente, é sempre diferente aos olhos do que nós somos. Eis porque interpretada em uma religião fundamentalista, o nosso hardware social funciona como mecanismo de extermínio. A existência homossexual afronta uma estrutura social que, fundamentada em interpretações erradas de um livro mal traduzido e considerado sagrado, tenta se preservar em uma sociedade cada vez mais dinâmica, tecnológica e na qual o valor do indivíduo é determinado pelo que é capaz de produzir e não por virtudes inerentes ao ser. As virtudes contemporâneas são virtudes sociais: o nosso modelo ético/moral propõe-se a ser partilhado globalmente, de modo inclusivo. A ideia de cidadão do mundo é difundida e apresenta-se como tendência.

Por isso, não há espaço para interpretações radicais do mundo. A laicização da sociedade é tendência, pelo menos, desde a Reforma Protestante na Europa. A ironia é que os neopentecostais sejam prole dessa mesma disputa pela interpretação dos textos do cristianismo e que, nadando contra a corrente, tenham se fechado em si mesmos (por enquanto). A tendência é pois que, com mais educação e respeito aos direitos fundamentais de todo indivíduo, essas religiões primitivas sejam extintas.

Religiões, porém, vão sempre existir, pois precisamos de ficções cotidianas para nos pretendermos eternos. A diferença é a natureza cosmopolita das crenças que estão por vir. Por outro lado, preconceito também vai continuar existindo. A ação causada pelo preconceito talvez diminua em violência e em crueldade. E por que o preconceito continuará existindo? Porque nós gostamos e desgostamos com a mesma intensidade. Porque existem indivíduos que nos agregam valores e existem indivíduos cuja existência nos causa aversão, pois ameaçam a nossa integridade na interpretação do mundo e na construção de valores individuais. Viver é difícil e não vem com manual; para alguns, neste dilúvio, qualquer pedaço de madeira está valendo.

João Barreto – Jornalista

Jornalista e mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. É analista de comunicação e cultura, especialmente de poéticas audiovisuais. Também tem interesse em desenvolvimento sustentável.

witter: @jaobarreto / Blog – http://jaobarreto.wordpress.com/