Criança sul-africana que nasceu com vírus HIV está “praticamente curada”, diz médicos

AIDS em pauta, Notícias
25 de julho de 2017
por Genilson Coutinho

O Globo

Uma menina sul-africana de 9 anos que nasceu com HIV está “praticamente livre” do vírus da Aids, de acordo com especialistas. A criança contraiu o vírus da sua mãe, por volta da época de seu nascimento. Ela recebeu tratamento logo após o parto, mas está há oito anos e meio sem nenhuma medicação.

De acordo com os médicos sul-africanos que realizaram o ensaio clínico do qual ela participou, isso é mais uma evidência de que o tratamento precoce pode, ocasionalmente, causar uma longa remissão que, se durar, seria uma forma de cura.

“Para nosso conhecimento, este é o primeiro caso sustentado de controle virológico de um ensaio clínico aleatório de interrupção de medicamentos após o tratamento precoce de bebês”, informou um resumo da pesquisa apresentada em conferência da Sociedade Internacional de Aids (IAS, na sigla em inglês) nesta segunda-feira.

Alguns especialistas, porém, pedem cautela, explicando que se trata de um caso raro e que isso não representa uma cura — apenas que essa possibilidade está mais próxima. Ainda assim, o feito serve de esperança às 37 milhões de pessoas no mundo infectadas, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (Unaids).

“É um caso que levanta mais questões do que necessariamente respostas”, disse Linda-Gail Bekker, presidente da IAS.

Ainda de acordo com o Unaids, aproximadamente 19,5 milhões das pessoas infectadas com o vírus da Aids estão sob tratamento. Esses pacientes normalmente precisam tomar medicamentos antirretrovirais por toda a vida para manter a Aids sob controle.

Os médicos indicam ainda que o tratamento precoce melhora a sobrevivência dos bebês nascidos de mães infectadas pelo HIV. A maioria apresenta um aumento da quantidade do vírus circulando no corpo quando param o tratamento, mas com a menina foi diferente, segundo os pesquisadores.

“Isso (o caso da menina) aumenta uma interessante noção de que o tratamento não precisa ser feito durante toda a vida. No entanto, é claramente um fenômeno raro”, acrescentou.

A informação sobre o estado de saúde da menina foi apresentada nesta segunda-feira em uma conferência da IAS em Paris, onde os médicos também relataram progresso em tratamento mensal ao invés de comprimidos diários para tratar o HIV. Ela é agora o terceiro caso em que uma criança conseguiu uma remissão duradoura e conseguiu manter o vírus suprimido por mais de dois anos sem medicamentos contra o HIV.

A criança sul-africana foi parte de um ensaio clínico no qual os pesquisadores investigaram o efeito de tratar bebês soro positivos em suas primeiras semanas de vida e, então, parar a medicação retroviral enquanto verificavam se o HIV estava sendo controlado.

O tratamento da menina, que contratiu HIV de sua mãe, começou com antirretrovirais quando ela tinha quase nove semanas de idade e foi interrompido na 40ª semana de vida, momento em que o vírus foi suprimido. A partir de então, a criança foi regurlamente monitorada para qualquer sinal de recaída.

“Aos 9 anos e meio, a criança estava clinicamente assintomática”, disseram os pesquisadores.

A doença já matou cerca de 35 milhões de pessoas em todo o mundo desde que se alastrou na década de 1980.