Coral prepara mixtape produzido na quarentena

Música, No Circuito
6 de junho de 2020
por Genilson Coutinho

Destaque do novo cenário estético e político da música brasileira, artista queer do sertão baiano rompe estereótipos sobre gêneros e tabus, unindo musicalidade à responsabilidade social e política

Artista queer destaque do novo cenário estético e político da música brasileira, Coral (nome social e artístico), traz à vida a metáfora popular através da sua música. Natural da cidade de Jequié, no sertão baiano, ritmos diversos e múltiplas personalidades se diversificam em uma mesma tessitura. Em cena, recria timbres, evoca a ancestralidade afrofuturista: samba, maracatu, côco, reggae, ijexá, funk, e pop numa base sólida, juntando todas as cores em múltiplas línguas e linguagens: “Eu não me sinto mulher, mas me realizo como uma. Mulher é minha ‘religião’. Mas também não me sinto homem, apesar de ter sido criado como um”. Rompendo estereótipos sobre gêneros e tabus, unindo musicalidade e criatividade à responsabilidade social e política, Coral prepara o mixtape “Os loucos anos XX”, criado e produzido durante a quarentena.

São quinze anos de trajetória na música, iniciada com apresentações em bares e teatros por todo território da Bahia. Em 2014, Coral venceu o Festival de Música “É por isso que eu canto”, em Vitória da Conquista- BA, sendo considerado o melhor interprete do sudoeste baiano. Participou de festivais como o “FLIGÊ” (Festival de Literatura de Mucugê), e no ano passado gravou na trilha do espetáculo “O Pirotécnico Zacarias” da companhia de teatro de bonecos Giramundo, em Belo Horizonte/MG, onde reside atualmente, e está em processo de gravação do seu primeiro disco autoral, em parceria com o produtor musical Thiago Braga (Pato Fu e Djonga).

DESAFIO

O trabalho de lançamento do primeiro álbum autoral precisou ser interrompido em abril, frente à pandemia do Covid-19. Entretanto, diante dos desafios impostos, e na tentativa de seguir trabalhando, nasceu “Os loucos anos XX”, que será lançado e disponibilizado em todas as plataformas digitais a partir de julho. “Durante este período, intuímos a necessidade efetiva e emergente de conceber um projeto específico e contextualizado. Ao lado de músicos parceiros, estamos superando à distância, limitações e dificuldades. Queremos inspirar, unir e motivar outros artistas a continuarem criando e produzindo, utilizando e potencializando as ferramentas virtuais”, explica Coral.

Em formato de mixtape, “Os loucos anos XX” faz analogias aos principais acontecimentos do século passado, observando-se retratos similares no cenário político e social na atualidade, com graves crises, de consequências igualmente nocivas, que se assemelham à grande guerra; outra pandemia sanitária como a gripe “espanhola”, que mais uma vez expôs e amplificou as desigualdades sociais, em interface com o fortalecimento de importantes narrativas, além de relevantes debates sobre a urgência de políticas públicas contextualizadas e direcionadas a grupos marginalizados, silenciados e historicamente oprimidos: mulheres; mulheres pretas e homens pretos, LGBTQIA+, povos indígenas e ciganos.

O álbum será composto por oito canções que retratam os desafios da quarentena, e refletem sobre os lugares ocupados por corpos transgressores “movendo-se livremente dentro de uma democracia”. Na música de trabalho, “fim do mundo”, é projetado um cenário apocalíptico, onde, no lugar de Jesus Cristo, é Nossa Senhora, mulher preta e empoderada, que acaba com o patriarcado, trazendo o prenúncio de um novo mundo, baseado no espectro da energia feminina em sua relação com o sagrado. “De fato, os anos 20 tornam-se loucos porque depois de um momento de grande tensão, como foi a Grande Guerra, há também uma grande descompressão. Não à toa, foram chamados de os ‘loucos anos 20’, e o espírito é de querer romper com um passado ruim, opressor, miserável, violento”, explica Coral.

Na concepção do trabalho, uma síntese entre as duas épocas, acionando referências sonoras, históricas e imagéticas da década de vinte do século passado, em conexão com diálogos contemporâneos. Coral destaca que a escolha do mixtape enquanto forma para dar vida e som aos “loucos anos XX”, partiu de uma experimentação que possibilita a realização de trabalhos musicais construídos à distância, mantendo a qualidade técnica e o alcance popular, sem perder de vista o respeito às normas de isolamento social.
“Queremos também incentivar mais artistas a utilizarem as ferramentas possíveis, dentro das condições impostas, para continuarem produzindo e trabalhando com o que lhes sustentam, não apenas no sentido físico do corpo, mas espiritual, da alma. Especialmente, para fortalecer os nossos compromissos e responsabilidades sociais e políticas enquanto artistas atentos e atuantes, em um contexto que nos atinge diretamente. Fomos os primeiros a parar de trabalhar, e certamente seremos os últimos a retornar. Precisamos reaprender a reescrever a nossa história, e tentamos fazer isto através da música”, finaliza.

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