Coordenador do CUS relança livro com debate em Salvador nesta quinta-feira (17), em Salvador

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14 de março de 2016
por Genilson Coutinho

Livro de Colling será lançado na quinta (Foto: Divulgação)

O livro Que os outros sejam o normal – tensões entre o movimento LGBT e o ativismo queer, do coordenador do grupo de pesquisa Cultura e Sexualidade (CUS), Leandro Colling, será lançado novamente nesta quinta-feira (17),  às 18h, na livraria Boto-cor-de-rosa, que fica na rua Marques de Caravelas, 328, na Barra, em Salvador.

“O livro foi lançado em setembro passado, no II Desfazendo Gênero, junto com outros 30 títulos e na ocasião não tivemos debate sobre a obra, por isso faremos um novo lançamento agora com um bate papo”, explicou Colling. Para fomentar o debate e tecer comentários sobre o livro, o pesquisador João Manuel de Oliveira, do Instituto Universitário de Lisboa, participará do evento, que ainda contará com uma performance de Leona do Pau.

O livro, editado pela EDUFBA com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb), analisa como os movimentos sociais LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) de quatro países (Portugal, Espanha, Argentina e Chile) conquistaram algumas leis importantes, como a do casamento civil igualitário, de identidade de gênero e antidiscriminação.

A obra também analisa o trabalho de coletivos e ativistas independentes mais sintonizados com perspectivas queer. Além disso, aponta os limites dos marcos legais e reflete sobre as diferenças entre as políticas desenvolvidas pelo movimento LGBT e o ativismo queer. Para fazer isso, Colling recorreu a uma extensa bibliografia e entrevistou em profundidade 35 ativistas e/ou pessoas que pesquisam o tema nesses quatro países. A coleta do material ocorreu de outubro de 2013 a agosto de 2014.

Queer é uma palavra em língua inglesa usada para insultar homossexuais, mas também pode significar estranho, algo difícil de definir. No final dos anos 80, alguns coletivos passaram a se reapropriar do insulto para positiva-lo e, ao mesmo tempo, nas universidades, começou a ganhar corpo aquilo que veio a ser chamado, posteriormente, de teoria ou estudos queer.

“A pesquisa fez parte do meu pós-doutorado. Os coletivos queer são menos comportados, mais transgressivos, menos legalistas e com maior diálogo com o campo da cultura”, explicou Colling. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, Colling diz que esses coletivos não estão apenas reproduzindo de uma forma colonialista alguns textos famosos de teóricas queer escritos em outros países. “Pelo contrário: estão, a cada dia, dando cores locais ao queer, o que inclui produzir a genealogia de uma perspectiva sintonizada com o queer em seus países, positivar e ressignificar os insultos usados em suas línguas e gírias e mostrar que é possível sim fazer política através de outros referenciais”, disse o pesquisador, que também é professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos, da UFBA.

O livro também pretende estranhar um pouco a forma de escrever textos acadêmicos. Além de abrir mão da clássica divisão entre parte teórica e análise empírica, e de utilizar uma diferente divisão entre os capítulos (divididos em flertes, transas e o cigarro), em vários momentos o autor escreve em primeira pessoa e as suas impressões sobre as pessoas entrevistadas e inclusive os locais de sociabilidade LGBT ficam explícitos em alguns trechos. Livros tidos como “de ficção”, em especial aqueles escritos nos países pesquisados, também foram acionados para compreender a produção de subjetividades nas cenas LGBT e queer de cada local.

O prefácio do livro é assinado pela professora Berenice Bento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, importante pesquisadora da área no Brasil. “O texto de Leandro Colling me aprisionou. Mário Quintana já dizia que os bons livros são aqueles que ao lê-los temos a sensação de estarmos sendo lidos. Esta cumplicidade acaba por nos “escravizar” ao texto. Não consegui libertar-me deste livro que agora você tem entre as mãos. Agarre-o e ele me agarrou por três dias. Ele conseguiu subverter a noção de dia e noite, cedo e tarde. Entre flertes e transas a leitura do texto me proporcionou orgasmos contínuos”, escreveu Berenice.

O livro também foi resenhado pela professora Milena Britto. “O livro, muito agradável de se ler e com uma pesquisa relevante e consistente, é de fato uma leitura fundamental para repensarmos a nós mesmos desde esse ponto de sujeitos que estão construindo e exigindo direitos cidadãos; e, sobretudo, para compreender, analisando o contexto dos quatro países escolhidos, que conquistar marcos legais de forma alguma significa conquistar políticas públicas que nos permitam exercer livremente as nossas diferenças. Uma boa oportunidade para entender o complexo tema das sexualidades, dos gêneros, das leis que se acercam cada vez mais das pesquisas ditas queer”, escreveu ela.