Conto de fadas brasileiro fala sobre o amor entre duas mulheres

Comportamento, Social
9 de janeiro de 2016
por Genilson Coutinho

Nem adormecida, nem aceitando casar com um desconhecido, nem à espera do bonitão num cavalo branco… convenhamos, essa fórmula já está um pouco batida. Desde “Mulan” até “Frozen”, passando pela “Princesa e o Sapo”, felizmente estamos vendo algumas mudanças no conceito de conto de fadas. Mas a psicóloga Janaína Leslão quis ir além. “Até onde pesquisei esse é o primeiro conto de fadas de amor entre mulheres, no Brasil e no mundo. Existem sim outros livros sobre casais de mulheres voltados para o público infanto-juvenil, mas não são do gênero conto de fadas, que é bem específico”, diz a autora de “A Princesa e a Costureira”.

Recém lançado, após cinco anos de trabalho e uma campanha de crowdfunding, o livro conta a história da princesa Cíntia, que está prometida em casamento, mas acaba se apaixonando pela costureira que iria fazer seu vestido de noiva. O pai de Cíntia se revolta com a notícia e a prende numa torre, mas ela consegue o final feliz com a ajuda da irmã, de uma fada madrinha, de uma agulha mágica e até do príncipe com quem se casaria.

“Histórias de amor existem várias, mas a modalidade retratada nos contos tradicionais é basicamente a formula da moça que é salva da pobreza/morte/prisão por um príncipe que geralmente ela não conhece, mas que a escolheu, e isso basta para eles serem felizes para sempre”, comenta Janaína.

Além de falar sobre um relacionamento lésbico, “A Princesa a Costureira” também se propõe a desconstruir estereótipos raciais. “Não vemos muitas princesas negras e famílias reais negras retratadas em contos. Assim, achei que seria ótimo ter uma protagonista princesa negra, pois as meninas negras geralmente não se veem representadas neste lugar”.

Depois do sucesso do crowdfunding criado para financiar as ilustrações de “A Princesa e a Costureira”, Janaína já está trabalhando na produção de mais um conto de fadas LGBT. Ele chama-se “Joana Princesa” e fala sobre uma menina transexual. “Esse outro livro traz a história da princesa Joana que quando nasceu foi chamada de príncipe João, mas que após alguns anos insistiu aos pais que a considerassem uma menina. Provavelmente será lançado em meados de 2016”.

Para a autora, é importante falar sobre o universo LGBT já na infância, pois desde muito cedo as crianças aprendem que essa realidade existe, mas geralmente sob uma ótica pejorativa. “Quando um menino é xingado de ‘bicha’ ou ‘viadinho’ na escola, ainda que ele não entenda exatamente o que significa isso, já estamos dizendo algo desse universo. De forma pejorativa, a criança aprende que essas pessoas são sinônimos de xingamentos. Quando ligamos a televisão e nos programa ditos humorísticos as pessoas LGBT são sinônimos de piadas, também estamos comunicando algo. Ou seja, não é verdade que as crianças não estão em contato com o universo LGBT. Elas estão, o tempo todo, mas tendenciosamente esse universo incute sofrimento e preconceito”.

ILUSTRAÇÃO: JÚNIOR CARAMEZ

Oficialmente lançado há poucos dias, o livro já conta com bastante repercussão e Janaína comemora a receptividade. “Está sendo muito boa! Sobretudo de famílias dizendo que desejam ter o material para conversar com seus filhos sobre diversidade humana; já adolescentes e jovens adultos estão me dizendo que finalmente se veem representados em um conto de fadas. Também existem as pessoas que reagem mal a proposta. Mas essas pessoas sempre foram representadas em contos de fadas e continuarão sendo”.

Vale lembrar que, em agosto desse ano, ninguém menos que o Papa Francisco mostrou-se favorável à publicação de um livro infantil italiano que estava sendo duramente rechaçado por conter personagens gays. Novos tempos e novas histórias para uma educação cada vez mais inclusiva e humana. As futuras gerações agradecem!

Do MdeMulher