“Combati o bom combate”, diz Luiz Mott, citando apóstolo Paulo

Redação,
05/11/2013 | 11h11

Um dos principais nomes na luta pelos direitos LGBT, o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, tem uma história emblemática. Ainda nos anos 1980, iniciou um trabalho “insano”, que aos olhos contemporâneos, em plena era da internet e redes sociais, parece impossível de ter sido realizado. Insatisfeito com a ausência de estatísticas no país sobre crimes homofóbicos, iniciou, à época, um verdadeiro garimpo a jornais de todo o Brasil reunindo esses casos. O resultado é um banco de dados amplo, que, segundo ele, é o maior sobre o assunto no mundo – tem registro de nada menos que 3 mil homicídios. Decano do movimento e respeitado até mesmo por organismos internacionais, Mott é um dos concorrentes ao Prêmio Rio Sem Preconceito 2013, pelo voto popular. Confira a entrevista do antropólogo ao site:

Para votar no Prêmio, clique aqui.

CEDS – Qual a importância, na sua opinião, de se ter um prêmio como o Rio sem Preconceito?

Luiz Mott – A homossexualidade é chamada “o amor que não ousa dizer o nome”. Hoje, cada vez mais, a comunidade LGBT sai do armário, mostra a cara. E, quanto mais os simpatizantes e os próprios homossexuais forem homenageados e aplaudidas as suas ações cidadãs, estamos contribuindo para destruir essa conspiração do silêncio que esconde, heterossexualiza, joga para escanteio as pessoas que, por simplesmente terem um estilo de vida diferente, são aniquiladas.

CEDS – Mas são menos aniquiladas hoje do que já foram?

Mott – Desde 1821, a homossexualidade deixou de ser crime. Em 1969, houve o “grito de independência gay”, com a revolta de Stonewall em Nova York. Em 1978, houve a fundação do primeiro grupo gay brasileiro, o “Somos”, de São Paulo. Depois, em 1996, pela primeira vez um documento oficial reconhece a existência dos homossexuais: foi o primeiro Plano Nacional de Direitos Humanos. Em 2002, FHC (Fernando Henrique Cardoso) foi o primeiro presidente da República a defender a união homossexual. Então, há, sim, uma evolução positiva, no reconhecimento da cidadania LGBT que visa não a privilégios, mas a direitos iguais. Nem menos nem mais.

 

CEDS – Na sua opinião, qual a diferença da luta pelos direitos LGBTs 30 anos atrás para agora?

Mott – Inegavelmente, os direitos da população LGBT passam a ser cada vez mais reconhecidos no mundo e no Brasil. A aprovação do casamento homoafetivo aqui e em muitos países é uma prova de que o slogan tão repetido pelos gays desde os anos 1980 é verdadeiro. A profecia se cumpre. (Cita o slogan): “somos milhões, estamos em toda parte e o futuro é nosso”. Porém, apesar de inegáveis conquistas, os crimes homofóbicos vêm aumentando incontrolavelmente. Quarenta e quatro por cento dos assassinatos de LGBTs no mundo ocorrem no Brasil. Trezentos e trinta e oito homicídios aconteceram em 2012. E 260 até outubro deste ano (2013). De modo que as conquistas são parciais e os nossos principais problemas continuam sem solução: o alto índice de infecção pelo HIV, entre gays, e os crimes homofóbicos.

 

CEDS – A que você atribui esse aumento nos índices de crimes?

Mott – O aumento da homofobia que o Carlos Tufvesson (coordenador Especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio) gosta de citar – que a violência não letal aumentou 46% – se deve à banalização da criminalidade em geral no Brasil e à falta de vontade política da Presidência da República em criminalizar a homofobia, como aconteceu com o racismo, por exemplo, e à falta de campanhas junto à população LGBT, no sentido de transmitir estratégias para que se evite termos novas vítimas.

 

CEDS – Você é uma referência internacional da ONU, por várias razões, inclusive por ter sido um dos primeiros a reunirem dados para estatísticas de crimes contra homossexuais. Como era trabalhar assim?

Mott – O GGB (Grupo Gay da Bahia), em 1980, na sua fundação, percebeu que era fundamental documentar os crimes homofóbicos para comprovar que a homofobia é muito mais sanguinária que o racismo. Por quê? Porque ninguém mata o negro e escreve no corpo: “matei porque odeio o negro”, como fazem com o gay. Numa fase pré-internet e pré-fax, a construção de um banco de dados sobre assassinatos de homossexuais em recortes de jornais era uma tarefa hercúlea, muito mais difícil. Hoje, através do Google, diariamente recebemos essas tristes notícias. (Desde a fundação do GGB) Coletamos mais de 3 mil homicídios. Todos devidamente documentados e à espera que a academia e o governo trabalhem cientificamente em cima deste acervo de ódio e sangue, que é o maior do mundo, para encontrar solução que retire o Brasil desta hedionda liderança.

 

Mott alerta para o crescimento dos crimes homofóbicos

CEDS – Valeu a pena o trabalho feito até aqui? E ainda está valendo?

Mott – Consideramos que contra fatos não há argumentos e que, apesar de frequentes questionamentos, sobretudo nos últimos tempos por parte de homofóbicos fundamentalistas, os dados são inquestionáveis. A cada 26 horas, um homossexual é vítima de homofobia cultural ou governamental. Eu tenho um pouco de melancolia em relação aos novos militantes do movimento LGBT que, muitas vezes, até desqualificam tantos anos de êxitos na militância. Como o apóstolo Paulo eu digo: “combati o bom combate, terminei a minha carreira e guardei a fé”. E não me arrependo de ter ousado assumir a minha verdadeira essência existencial e ter lutado tantos anos para resgatar o direito a 10% da humanidade de amar livremente.

 

CEDS – Você sempre defendeu que pessoas conhecidas saiam do armário publicamente. Por quê?

Mott – Nossos jovens precisam de ícones positivos para, com segurança, assumirem um amor ainda tão maldito e perigoso. Sempre estimulei e continuo considerando vital que vips de todas as áreas tenham a honestidade de sair do armário, colaborando, assim, por exemplo, para diminuir o sofrimento de tantos jovens que ainda têm medo de sair do armário.

 

CEDS – Como fez recentemente a cantora Daniela Mercury…

Mott – Sim, a Daniela, o (ator Marco) Nanini, que foi fantástico… (Em 2011) Uma simples declaração como a dele (à Revista Bravo) – dizendo sobre namorados – foi importantíssima na época porque é tanta hipocrisia… Todo ano o GGB dá o “Oscar Gay” para os amigos e o “Pau de Sebo” para os inimigos. Um ano, por exemplo, o Nanini ganhou.

Entrevista publicada originalmente no CEDS (C00rdenadoria especial da Diversiadde Sexual  do RJ)