Close, Glamour, Vogue… POSE!… por Filipe Harpo

Cinema, No Circuito
27 de outubro de 2019
por Genilson Coutinho

O homossexual negro é habitante de dois mundos distintos, que são ao mesmo tempo, dois tabus da sociedade, a homossexualidade e a raça. A negritude se constitui através da normalização da heterossexualidade, enquanto o mundo LGBTQ+ nega o sujeito negro, pois seus clubes, boates, espaços de confraternização, imagens, mídia, perspectiva de poder, padrões de corpo e consumo tem referencia no LGBTQ+ branco. Ele enfrenta a segregação heterossexual negra e o racismo LGBTQ+. É obrigado a se reconstruir, edificar suas próprias referencias. É sobre isso que a série POSE fala. Criada por Ryan MurphyBrad Falchuk e Steven Canals a produção mostra a reconstrução dos excluídos, estranhos em um mundo já marginalizado, onde poderiam se reconhecer facilmente, mas não são convidados a juntarem-se à mesa com o seus “iguais”.

A série, ambientada no final dos anos 80, durante a Era Pós Disco, onde as discotecas entraram em um processo de marginalização, estigmatizadas por serem frequentadas por gays, negros e mulheres “fáceis”, mostra o processo de sobrevivência da comunidade latina e negra LGBTQ no centro de Nova York, em meio aos Bailes de Vogue, a AIDS devastando o país e a ascensão dos yuppies. É neste meio que Blanca, uma mulher negra trans, funda a Casa Evangelista, para abrigar homossexuais e transexuais expulsos de casa.

É Blanca o grande elo entre os 3 núcleos principais da série. Na Casa Evangelista encontramos a trans Angel apaixonada pelo yuppie Stan Bowes, o jovem casal gay negro Damon e Rick e o jovem latino Papi, esses três últimos tirados das ruas. A casa Abundance é chefiada pela trans Elektra Abundance, sendo Candy, prostituta e Lulu, a latina que estranhamente o roteiro nunca aprofunda suas questões, mulheres trans, suas filhas. As duas casas se confrontam artisticamente nos Bailes, onde o MC Pray Tell chefia os duelos.  Ele tem um namorado hospitalizado em uma área negligenciada para doentes com AIDS.

Através destes personagens, Pose mostra as diferenças dentro da comunidade LGBTQ+ tratadas com desigualdade pela mesma. A série trabalha as contradições da comunidade, seus pequenos ódios internos, as diferenças de classe, raça e também entre os gêneros das sexualidades homossexuais. Quando o homossexual negro enxerga finalmente que nem o mundo negro, nem o LGBTQ lhe pertence totalmente, como age? Qual caminho segue? Pose mostra a junção dos excluídos. Parece superficialmente romântica, mas se você, caro leitor, enxergar direito, Pose em sua primeira temporada se concentra no interno. Em uma comunidade formada por identidades completamente diferentes é poético demais esperar união unânime. Os negros e latinos se juntam, mas os marginalizados são diferentes. A questão principal aqui é, Pose mostra pessoas dispostas a conviver e portanto corajosas o suficiente para enfrentar os conflitos. Nada está por baixo do tapete! Brigas acontecem, durante a série, vemos verdades sentimentais e ideológicas expostas, mas tudo em prol da convivência. Afinal de contas, há um inimigo em comum, ele é forte e precisa ser enfrentado, não de maneira simplória, mas é preciso estar forte para a homo/trans fobia presente nas ruas, nas nossas famílias biológicas, no trabalho e até nos nossos amores…

Apesar do tom sério, a produção é extremamente divertida. Afinal de contas, a fechação é um traço da sobrevivência LGBTQ. As bichas não fazem palhaçada pela palhaçada. A fechação é contravenção, é evidencia de liberdade, é estilo! O riso é um desabafo! O shade é exigência ao perfeito! Estamos em um tempo que ir para a boate, ou um baile significava a busca por identificação, livre arbítrio, amor, além claro de sexo, pegação, amor, dança, lacração. Em Pose se fecha e não é pouco! Muito carão, muito close, glamour, elegância, extravagância, opulência.

Black Macho Fucker?… por Filipe Harpo

Nesta primeira temporada, disponível na Netflix, Pose deixa muitas vezes as questões externas de lado, mas logo os autores viraram o jogo do roteiro e colocaram à luz do dia a forma como o mundo vê nosso povo na segunda temporada. Ou você nunca se atentou, na série, no fato das trans andarem pela rua, tranquilas e ninguém bater nelas, não haver conflitos entre o masculino e o efeminado dentro das casas… E de como a sociedade negra heterossexual também se fechou com o passar dos anos aos homossexuais. São questões que podem ser abordadas em temporadas seguintes… aprofundar questões para melhor representar.

Afinal de contas, representatividade importa! Sempre importou. Mas não precisa somente representar. Corpos por corpos, eles sempre foram expostos. A diferença agora é como a representatividade se apresenta. Ativa, politizada e consciente. Eu não me vejo no trabalho de Carlinhos Maia por exemplo. Por vários motivos. Mas me sinto representado por Angelica Ross, integrante do elenco, empresária e também roteirista, Billy Porter (que recentemente ganhou Emmy pela segunda temporada desta série), Sulivã Bispo (ator baiano), Sydnei Santiago (ator carioca) ou o Coletivo Bonecas Pretas (uma espécie de Casa Drag, formado por transformistas negros aqui em Salvador). Pose nos atenta a isso. A fechação é um ato político! Fechar é representar! Feche, mas feche direito viado!…

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.