Casamento emborrachado: usar ou não preservativos é dilema para casais estáveis

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19 de junho de 2013
por Genilson Coutinho

Você está namorando há certo tempo. Transa com freqüência, sempre com camisinha. Até que um dia se es-quece de levar. “Tudo bem”, pensa. “Só desta vez”. Com o tempo, o casal passa a transar sempre sem camisinha, mesmo não seguindo as recomendações das autoridades de saúde.

Houve um tempo, lá em meados dos anos 80, que os casais gays tinham de negociar o uso da camisinha. Afinal, naque-la época, era difícil saber quem poderia estar contaminado com o hiv e, portanto, a proteção era mais do que necessá-ria. A consciência disso, porém, não impedia que conflitos surgissem. “Era um drama”, afirma o ator Cláudio Mendes. “Falar sobre camisinha despertava pânico. Por outro lado, obrigava as pessoas a reconhecerem que levavam uma vida na época considera promíscua”.

Hoje, pouca gente cria caso para usar camisinha no início de um relacionamento. Porém, quando ganham confiança no parceiro, parar de usar é uma questão inevitável.  “O uso de camisinha nas relações monogâmicas e estáveis é um assunto pouco discutido, mas basta fazer uma enquete en-tre os amigos que têm namorados para notar que a grande maioria não usa”, diz o estudante Leandro Leal, 28.  “De-pois de um tempo de relação, a confiança é maior do que o medo e insegurança de uma DST ou mesmo do HIV”, afirma.

Na prática, não é uma questão fácil de ser resolvida. Isso porque envolve um alto grau de confiança no parceiro. “Ambos têm de confiar um no outro”, diz o economista Alex Laurindo, 23. “E é preciso, também, acreditar que não vão manter relações sexuais desprotegidas fora do casamento”.
Para casais que mantém o relacionamento aberto, essa discussão é ainda mais complexa. Márcio Canhêdo, aluno de Audiovisual na USP, passou por uma crise com seu na-morado, com quem está junto há 11 anos. “Ele me contou que em algumas circunstâncias fez sexo desprotegido [eles admitem que tenham envolvimentos sexuais paralelos]”.  Márcio afirma que passou meses com medo de estar conta-minado com o HIV. “Fomos fazer o teste juntos e descobri-mos que estávamos limpos”.
Hoje, os dois transam entre si sem camisinha, mas se com-prometeram a sempre fazer sexo seguro com outros parce-iros sexuais. “Se ele vai sair sozinho, eu mesmo coloco pre-servativo e gel no seu bolso”, diz Márcio.

Para sempre
Vários casais têm optado por nunca pararem de usar cami-sinha. “A fidelidade não previne da Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis”, diz David Harrad, casado com o presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, Toni Reis.

Juntos há 18 anos, eles só transam com preservativos. “Pessoalmente, acho mais higiênico fazer sexo com cami-sinha”. Toni concorda: “Desde o início, tomamos a decisão de usar camisinha sempre. Isto não quer dizer que um des-confia do outro. Pelo contrário, significa que queremos o bem um do outro. Quem ama, cuida”.

Atração pelo perigo
Mas se é tão complicado, por insistir em transar sem cami-sinha? “É muito mais gostoso”, diz Alex. “É um prazer ma-ravilhoso, porém momentâneo. Já a nossa saúde, a nossa vida, é muito maior”.

No entanto, algumas pessoas inconscientemente colocam a vida em risco. “Em meu consultório, é comum aparece-rem gays que não usam de jeito nenhum”, diz a psicana-lista Cátia Oliveira.

“O curioso é que os mais enrustidos são aqueles que menos se preocupam com sexo seguro, o que me leva a pensar em algum mecanismo de autopunição”, afirma. Cátia diz que não vê problemas em casais estáveis pararem de usar preservativos, mas recomenda que ambos procu-rem orientação médica. “É preciso que todos estejam conscientes dos riscos que podem estar correndo. Nossa visão romântica não ajuda a prevenir a Aids”.

Matéria publicada originalmente na revista Acapa