Black Macho Fucker?… por Filipe Harpo

Cinema, No Circuito
11 de agosto de 2019
por Genilson Coutinho

Por Filipe Harpo
Se o sexo casual é fruto da sociedade de consumo, bater uma em frente ao computador, pode até ser uma atividade relaxante para o espectador, mas é levada a sério pela industria da pornografia. Consumir pornô na net é um ato comum moderno. Conheço gente (não são poucos) que prefere o virtual ao real. Os donos dessa indústria sabem disso; consumo natural, vício, transgressão, não importa, o melhor é devorar o pornô. Afinal de contas, arte também é lucro!!! Só que está industria pornô gay, da maneira como conhecíamos antes, com seus estúdios e empresas detentores de corpos e conteúdos, está em crise. Hoje, principalmente com o barateamento das ferramentas de exibição, os corpos podem não pertencer a um grande império de distribuição, sendo donos de si e da sua performance. Seu ator preferido está a um clic, não só no site da Falcon ou Mundo Mais, mas em serviços de OnlyFans ou sites próprios. Não se engane, é tudo uma questão de negócios.

Nessa leva, corpos negros estão em evidencia comercializados de várias formas. A visão tradicional permanece intacta. Homens negros malhados\sarados, com pau gigante, insaciáveis prontos para servir o apetite de homens brancos, também insaciáveis, mas estes últimos nunca são problematizados, afinal de contas são os servidos e não os que servem. Os brancos gostam de evidenciar o outro como animal e a si mesmos como normal… é histórico…

A “nova onda” é dar valor ao pornô de nicho, da forma mais intensa. Onde fantasias sexuais dentro do imaginário negro podem aparecer. Afinal, quando o branco não está à mesa, como os corpos negros se tratam? Quais as fantasias, desejos, revelados por uma boa cena pornô? Em alguns pontos o pornô entre homens negros muda, em outros seguem a cartilha tradicional do obsceno.

Primeiro, caro leitor, abra o olho. Pornô é violência! E não se engane, a cena pode esbanjar afetividade narrativa, mas a produção exige alta performance mostrada na edição. A escaleta básica de uma cena BEIJO – PRELIMINARES – SEXEO ORAL – PENETRAÇÃO – GOZO (farto) sempre para a câmara, também é mantida. Não se assuste, você que lê, se pegar pensando neste momento, nas ultimas gozadas em sexo fortuito serem pra fora. Sentir a necessidade de ver o gozo é sim uma influência pornô.

Outros clichês desse mundo estão intactos. O papel do ativo como mestre alfa da cena, os corpos padrão como espelho da beleza, o alto desempenho dos parceiros com um apetite sexual ratificado pela edição. O efeminado como sujeito inexistente no desejo da cena. Mas como o branco não está aqui, coisas diferentes acontecem…

O padrão de heteronormatividade é posto “em xeque” o machão negro, com pinta de malandro, gingado, herói do gueto, aqui é gay. Toda sua masculinidade vai para o corpo negro. Neste caminho, o cenário muda, os negros agora podem estar em situações de poder de classe. Ele não é mais o pedreiro, somente o encanador, o vendedor de vassoura, o motorista de uber, ele não chega na mansão para servir, ele MORA ali. Há sim a fantasia de patrão vs empregado, mas este  fator não se racializa.

Mesmo a valorização do ativo estando em alta, há uma maior versatilidade na cama. Muitos não todos são versáteis ou passivos e exibem isso como mais uma característica de si, o versátil e o passivo negros não são vistos como vergonha ou desperdício por serem negros. Dada a essa estado volátil, alguns atores negros se dão ao luxo de somente contracenar com outros negros. Com produção negra, fechando o olhar da lente e afastando o branco como OBJETIVO. No pornô, o branco para o corpo negro nunca me pareceu uma fantasia, um desejo e sim um OBJETIVO. Cumpro meu papel no mundo do outro, pois só assim existo. Já no meu próprio espaço apareço realmente, exponho e exibo minhas vontades.

Nada disso é inocente. Pornô é arte. Arte é política, política é posicionamento. E a posição do pornô é violar! Não é somente pela existência de negros na cena que o brutal desparece. Ele se modifica. O pornô está para escancarar o proibido. E o proibido em alguns casos é somente negro. Sem a presença de estereótipos brancos racistas. Não está livre de outros estereótipos, mas… Aceite, branco leitor, você pode não ser o centro das atenções nas nossas fantasias, muitas vezes, nem citado você é…

Filipe Harpo é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.