As armas de Ismael Carvalho por Filipe Cerqueira

Colunistas, Sala VIP
3 de setembro de 2020
por Filipe Cerqueira
Ismael Carvalho (Foto: Arquivo pessoal)

Ismael Carvalho estourou recentemente no gigantesco mundo dos digital influencers em um vídeo onde toca em uma ferida exposta na música da Bahia. Racismo, Axé music e a relação desses dois fatores no mercado da música baiana. De compartilhamento em compartilhamento, de famosos e pessoas comuns, ele foi aumentando o numero de seguidores e está marcando território com seus vídeos informativos no IGTV. Carismático e dono de uma fala mansa, não se engane, Ismael vai cutucar o racismo, com argumentos, roteiro cuidadoso e edição primorosa. Essas são suas armas!

Filipe Cerqueira – Houve um crescimento muito forte, principalmente nesses primeiros meses de pandemia e isolamento, de criadores de conteúdo negros tanto no YouTube quanto no Instagram. Muitos falam sobre negritude e luta anti racista. Em meio a tanta gente falando sobre o mesmo assunto o que os seus vídeos oferecem de diferente?

Ismael Carvalho – Eu estou muito feliz com tantos pretos ocupando uma mídia, que enxergo como mais democrática do que as antigas (TV, Rádio, Revistas…). O primeiro ponto é que trago meu conteúdo no IGTV, ferramenta que era pouco explorada pelos criadores. Outro ponto, é que busco por temas também pouco explorados no audiovisual da internet e trago elementos que vão de alguma forma persuadir quem tá assistindo, uma linguagem menos acadêmica, uma estética visual mais atrativa e um roteiro que prenda a atenção das pessoas.

FC – Seu segundo vídeo, sobre racismo no axe music, viralizou de forma bastante rápida, fazendo você obter números que muitos criadores levam meses para conseguir.  Na sua opinião, o que atraiu tanto a atenção para aquele vídeo especifico? Pois o assunto já tinha sido abordado por muitos estudiosos e também outros criadores de conteúdo.

IC – Não encontrei vídeos falando sobre o tema na internet! E o audiovisual é a bola da vez. Não existia uma síntese sobre o assunto em formato de vídeo, as pessoas gostam disso! E acredito que o elementos atrativos que falei na pergunta anterior contribuíram muito pra isso também. Tenho muito orgulho desse vídeo.

https://www.instagram.com/tv/CCCPwlllCS1/

FC – Vejo que você não necessariamente faz seus vídeos sobre o “assunto da semana” e sim sobre temas pertinentes a você, independente se estão sendo muito discutidos ou não. Como se dá o seu processo criativo entre elaboração do roteiro, gravação e edição do conteúdo formulado?

IC – Eu busco temas que são pertinentes na vida da pessoa preta. Que estão ali nas nossas rodas de conversa. Eu escolho esse tema me baseando nisso, escrevo o roteiro me atentando sempre em não deixá-lo monótono, gravo aqui em casa mesmo com a ajuda de meu irmão e eu mesmo edito. Na edição eu tento ser bem cuidadoso, para deixar o vídeo bastante dinâmico e gostoso de assistir. Demoro muito tempo na edição!

FC – Falar sobre racismo e negritude, requer do criador de conteúdo muitas vezes posicionamentos fortes, muito caro a sensível branquidade vigente no Brasil.  Vocês são levados a se posicionar contra marcas, estabelecimentos, pessoas famosas com práticas racistas. Estamos em um país onde os brancos reconhecem a existência do racismo, mas não se reconhecem racistas. Como é a relação com seu público branco, muito provocado pelos temais que você traz?

IC – Eles geralmente apenas me agradecem por estar ajudando na desconstrução deles. Eu recebo poucas críticas, graças a Deus! E meu público é fortemente formado por mulheres negras e depois homens negros, é pra eles que eu faço meu conteúdo.

FC – Quais foram suas referencias para construção dos vídeos e também o conteúdo da página? Algum youtuber ou artista especifico tornou-se um norte para o ponta pé inicial em suas criações? E o por que essa (s) pessoa (s) são importantes pra você?

IC – Rapaz, relacionado ao conteúdo, Gabi Oliveira me inspira muito, o AD Junior, Rodrigo França, Tia Má. Gosto muito do jeito que essa galera descomplica alguns temas urgentes e importantes a serem debatidos.

Ismael Carvalho (Foto: Arquivo pessoal)

FC – Como homem negro gay soteropolitano, você enxerga uma cena LGBTQIA+, na cidade, que espelha a parte negra dessa comunidade? Como está, na sua opinião, esta cena em Salvador para o público preto LGBTQIA+?

IC – É difícil falar sobre a cena LGBTQIA+ de Salvador, porque ela praticamente pertence inteiramente a um único grupo. Grupo esse, que não tem interesse algum em dialogar com o público preto da cidade. Pergunte para qualquer preto, com mínima consciência racial, em Salvador. Mas alguns outros grupos, que pautam essas e outras questões importantes, estão começando a surgir e eu fico muito feliz, como o Coletivo Afrobapho, Paulilo Paredão, Batekoo. E nós, pretos, temos a obrigação de fortalecê-los!

FC – Para pergunta final, queria saber quem Ismael Carvalho indica como boa opção de artistas negros que poderiam ser mais consumidos? Três artistas que não saem atualmente da sua playlist ou inscritos no YouTube.

IC – Que difícil! Mas vamos lá, vou falar sobre música, que é uma das minhas maiores paixões.  Iza, potência brasileira que precisamos fazer acontecer de forma gigantesca, porque a branquitude vai tentar impedir isso, escreva!  Larissa Luz, preta, baiana, que eu amo demais e está  renovando, junto com outros artistas o cenário musical do estado. E as Destinys Child, 3em1, Hahahah desculpa burlar as regras. Eu sou louco por essas três mulheres como grupo e individualmente.

Filipe Cerqueira é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.

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