Amar, verbo libertador por Filipe Cerqueira

Literatura, No Circuito, Opinião
15 de junho de 2020
por Genilson Coutinho

por Filipe Cerqueira

Dia dos namorados sexta passada, fim de semana apaixonado, regado a declarações de amor nas redes sociais e de postagem em postagem, curtindo o post de alguns casais, me deparo com um antigo colega de sala expondo seu amado namorado para todo mundo ver. Na verdade, se tratava de um post com inúmeras fotos. Em todas ele e seu amado felizes. O melhor, em algumas não estavam só. Partilhavam a felicidade com amigos e família. Imediatamente lembrei do nosso passado enquanto colegas em um curso anos atrás e não consegui conter o sorriso. Ele tinha mudado. E pra melhor!
Explico. Anos atrás, esse meu colega era encubado. Estou falando de armário nível hard, sabe? Fechado a cadeados e correntes com chaves perdidas para ninguém soltar o que lá dentro estava. Meu colega encontrava-se numa situação horrorosa. Era gay, sabia disso, mas ninguém, nem amigos, colegas de trabalho ou familiares sabiam de sua homossexualidade. Para falar de homens bonitos que passavam na rua, enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus, ele falava baixo, como se estivesse cometendo um crime. Mesmo estando os dois em uma rua deserta, tarde da noite.


Lembro que em uma das conversas ele me confessou estar apaixonado por um homem. E de como era difícil se relacionar com alguém, justamente por estar no armário. Eu, um romântico clichê, fiquei lá tentando reverter cada quadro negativo entregue por ele. Como muitos discretos fora do meio no armário sigilosos, o mundo gay se resume a fodas fortuitas e zero de zelo. A sexualidade se resume ao sexo, nunca ao afeto. Entre um argumento e outro, uma parte na conversa eu precisei ser bem realista.
Quando você ama, se apaixona, você perde a noção da homofobia. Se pra mim, amigo, tenho que ter cuidado. Imagine você!
Mas, como assim? Você, caro leitor, já esteve enamorado e se pegou sem filtros. Tá lá conversando com o boy e POW, pega nele de uma forma mais intima. Na frente de tudo e todos. Você comendo o sanduíche, fica um pouco de mostarda no canto da sua boca e ele vai lá e PÁ, tira o amarelo dos seus lábios de uma forma mais… carinhosa. Um amigo um dia relatou a mim estar fazendo compras com o marido e do nada soltar em pleno corredor cheio de um grande supermercado, “Amor, pega pra mim o sabão em pó, me esqueci aqui”. Ele de branco ficou um tomate! O que as pessoas poderiam falar?


Apaixonado, você perde a noção do quanto a homofobia te prende. Você quer ser LIVRE! Quer andar de mãos dadas sim, quer fazer carinho sim, quer dar selinho em publico sim! Apertar o foda-se, torna-se muitas vezes um ato involuntário. Quando vê, já foi, fez! Solteiros, nos seguramos, aqui não, espera um pouco, não pode agora. E aí a gente se protege. Apaixonados? Não tem trilho que segure nossas vontades…
Meu amigo bateu de pé junto, sempre ter força para o auto controle. Acabamos o curso. Nos afastamos e encontrava ele vez ou outra, em uma boate, numa estação de ônibus, no facebook, depois instagram, ele chegou a ir em uma peça minha. Sempre encontrava ele diferente. Mais feliz, mais livre, o discurso tinha mudado. E nos papos, mesmo breves, ele deixava parecer a sua vontade em ser feliz de verdade. Sem esconderijos.
Ai vai eu no insta e o casal com as fotos mais simples, o texto mais sucinto, foi o que me deixou sorrindo a toa. Ai, claro, fui ver o álbum dele completo da bicha. Ele negro pele retinta, com outro homem negro também pele retinta, sorrisos largos em fotos. Declarações simples, certeiras. Expressões como “Meu namorado”, “Meu amor” “Meu nego “Meu marido” estampavam as fotos em um ato de evolução do relacionamento. O Pedro (nome fictício) angustiado, bicha medrosa, jovem inexperiente, deu lugar a um homão preto bem resolvido e feliz.
Eu sei, eu sei, quem vê Insta não vê coração. Mas o que eu presenciei anos atrás, para o que vi agora foi um salto e tanto. Eu não sorria apenas por ele estar namorando. Relação não garante felicidade de ninguém. Mas por ele estar LIVRE para amar, se amar, ser amado! E me contagiei com a alegria do outro!!! Segui meu dia, feliz.

Filipe Cerqueira é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.

Deixe seu comentário

Sem comentários, seja o primeiro.