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Acolhimento, formação e oportunidade transformam a vida de babalorixá trans

Genilson Coutinho,
29/08/2023 | 10h08
Foto: Divulgação

No Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT ele desempenhou o papel de estagiário dedicado do Serviço Social. Em casa é o marido e pai de família empenhado no bem estar de todos. Na universidade cumpre o sexto semestre de olho no diploma que promete mudar os rumos de sua vida. Como adepto do Candomblé frequenta o Terreiro Unzo de Mutalambô, liderado pelo Tatá Jubile Pai Jorge, da Nação Angola e, há três anos, ostenta a condição de Babalorixá da Nação Ketu, depois de duas décadas de Axé. Esse personagem multifacetado e cheio de coragem chama-se Caio Brian Santana Santos, 42 anos, um dos casos mais emblemáticos no universo de pessoas LGBTQIAPN+ acolhidas pelo CPDD, instrumento da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, executado em parceria com a Instituição Beneficente Conceição Macedo.
Atraído pelos cursos técnicos profissionalizantes oferecidos em parceria com o SENAC, Caio, frequentou com assiduidade as aulas sobre Qualidade no Atendimento em Serviços de Alimentos e Bebidas e também de Técnicas de Atendimento e Recepção, ministradas gratuitamente na sede do CPDD, no Casarão da Diversidade, rua do Tijolo, número 8, Pelourinho. Com ótimo desempenho e enorme interesse em se desenvolver como pessoa e profissional, acabou contratado como estagiário do Serviço Social. Bastaram apenas três meses de experiência para Caio alçar voos ainda mais altos, agora como funcionário contratado de um Posto de Saúde.
“Depois da extraordinária experiência no CPDD vou ter a oportunidade de trabalhar com outros públicos dentro de minha área de formação e isso tem tudo a ver com as oportunidades ofertadas por este espaço de acolhimento e aprendizado”, pontua Caio, lembrando que este foi seu primeiro estágio formal remunerado. “Nós pessoas trans, temos dificuldade em conseguir vaga de estágio e emprego. O preconceito e a discriminação, fundamentados no desconhecimento e na ignorância, mesmo que velados, ainda existem dentro de nossa sociedade machista e patriarcal”.
PIONEIRISMO – Há 4 anos Caio exerceu o direito a retificação de nome e gênero, o que acabou por transformá-lo em um dos primeiros homens trans da Bahia a conquistar a posição de sacerdote entre as religiões de matriz africana, condição que surpreende ao próprio Caio. “Mulheres trans são mais comuns no cargo de Ialorixá. Mas, de fato, não lembro de outro homem trans que seja babalorixá”.
Taurino, protegido pelas armas de Oxóssi e Ubaluaê, ao longo da vida Caio assumiu a paternidade de cinco filhos, sendo que dois deles, já casados, lhe presentearam com netos. “Levo uma vida plena. O CPDD resgata nossa auto estima ao provar, na prática, que podemos estar em todos os espaços e exercer todas as funções, sempre com a perspectiva do crescimento em todos os sentidos”, pondera Caio, cuja formação acadêmica passou a ser a nova obsessão. “Quero me formar para proporcionar uma vida melhor para minha mãe, minha mulher e meus filhos”
TRANFORMAÇÕES – Por falar nisso é do amor da família que Caio extrai a força necessária para superar os obstáculos que o mundo insiste em colocar no seu caminho. “Somos muito apegados. Quando conheci minha esposa não era hormonizado e ela acompanhou toda a transição, o que não é fácil nem comum. Muitos relacionamentos acabam a partir das alterações e transformações físicas. Mas, no nosso caso, a relação só se fortaleceu.
E o corpo de Caio vai mudar ainda mais quando finalmente poder realizar a mastectomia (retirada cirúrgica dos seios), procedimento que não é realizado pelo SUS quando se trata exclusivamente de questão estética. “Tudo faz parte de um longo processo de auto conhecimento e aprendizado continuo. Sempre me entendi como homem. Evolui lendo a obra de João Neri, lapidei minha autoestima no CPDD, ampliei minha possibilidades nos estudos, tenho um trabalho digno e sou cercado de amor pela minha mãe, esposa e filhos. Agora é saber ser feliz, comemora Caio.