A revelação trans por Filipe Cerqueira

Cinema, No Circuito, Opinião
22 de junho de 2020
por Genilson Coutinho
Marquise Vilsón Balenciaga

Fenômeno liberal frustrado contemporâneo: achar que so porque pertence a alguma identidade marginalizada pela sociedade, o sujeito entende tudo sobre todas as dores ou compartilha do conhecimento da dor do outro. Assim é a comunidade gay. Experimenta da subalternidade motivada pela homofobia, mas coloca as outras letras da sigla LGBT de lado e vai além, não abre mão do protagonismo do pequeno poder! Nós chegamos primeiro, recebemos as bênçãos, ditamos as regras, dominamos os espaços. Tudo está ao redor do umbigo G. Esse “fenômeno”, é facilmente perceptível no novo documentário disponível na Netflix, Revelação, do diretor Sam Feder, sobre as representação de homens e mulheres trans em Hollywood.
O filme não passa mão na cabeça de ninguém. Se hoje o produtor e diretor Ryan Murphy responsável por séries como Pose e Hollywood é visto como revolucionário, seu passado é posto em xeque através de provas concretas de séries antigas suas, recheadas de transfobia. A apresentadora e queridinha do público Oprah Winfrey também está lá, com exemplos transfóbicos e sensacionalistas nos seus antigos programas. Tudo isso passado e repassado por pessoas trans. E logo digo uma das qualidades do filme: Nenhuma pessoa CIS é chamada para falar. Nenhum cientista, medico famoso, estudioso, pesquisador. Nada! São elas por elas! As críticas, elogios, as referências, a raiva, os traumas, as alegrias. Povo trans em primeiro e único lugar. Mulheres e homens!
Para mim, um homem cis, o documentário foi bastante chocante. A todo momento meu lugar de macho cis sendo colocado na parede. A cada fala de diretoras, atores, atrizes, produtoras uma camada minha de transfobia ia sendo mostrada a mim mesmo. Me peguei rindo nervoso, assistindo o filme, comendo pipoca para tentar distrair o cérebro. O filme não só disseca o a indústria, mas o público também. Afinal de contas, nós repercutimos transfobia quando consumimos séries problemáticas à identidade trans, não fazemos nada e o pior, achamos realmente que aquelas questões abordadas fazem parte do universo dessas pessoas.


O documentário te leva por um caminho, no começo, obvio. Filmes antigos, Hollywood na era de ouro, a influencia do clássico racista “O Nascimento de Uma Nação”, tudo está lá, para te manter no seu lugar de liberal intacto. Depois, aos poucos, o filme desnuda filmes, desenhos e séries de sucesso, no coração do público a tempos como CSI, Estética, Pernalonga, Ace Ventura mostrando que estava tudo lá, você fez parte daquilo e ainda ficou satisfeito com o resultado. As lembranças vieram rapidamente. Lembro de como era difícil ver a questão trans nos filmes, pois tudo era sempre tratado com chacota, era a pouca referencia LGBT a mostra e de como eu queria me manter afastado de tudo.
A “narrativa da revelação” é um dos aspectos mais asquerosos que o cinema iaque fez com homens e mulheres trans. Se para o cinema gay ou lesbico, isso se caracterizou como um estereotipo, do lado trans o buraco era bem mais embaixo. A pessoa trans sempre ocupava o lugar de mentiroso, aproveitador, como se possuísse um segredo terrível e por falta de índole escondesse sua identidade, se aproveitando da inocência da pessoa cis ao seu lado. Heteros são símbolos de inocência perante a personagens trans maliciosos.


Com os gays e lesbicas não é muito diferente. Do lado das mulheres cis lésbicas, os homens trans são acusados de traírem a comunidade feminista, ou de estarem largando um dom divino, pertencer ao feminino. Além de estarem se entregando ao lado opressor, tornando-se um macho escroto. Do lado masculino cis gay, há uma tendência normativa de como mulheres trans devem se comportar, segundo a visão gay do feminino, extremamente classudo ou o estereotipo da travesti barraqueira.
Esteticamente, o documentário é um filme pobre. Segue a risca a cartilha de roteiro básico. Entrevista, documentos, fatos, comprovação dos fatos através dos depoimentos. E desenvolve esse vai e vem. Por conta do tema, e das entrevistas/depoimentos fortes e engajados de homens e mulheres trans, o filme nunca se perde. Ninguém tem a língua presa, não há medo. Elas e eles falam direto ao ponto. Ao menos para um olhar cis, o filme me passou extrema coragem, apesar da pobreza do misancene.


Mas ver pessoas trans falando sobre a própria existência é um ato revelador. É um filme para você homem gay ou lesbica cis, negra ou branca, calar a boca. Nós não estamos convidados a sentar à mesa. Nossa opinião não interessa! Nosso lugar de fala não é requisitado. Somos espectadores. E que bom a existência de um filme assim. Que me ponha pra fora! Que ponha os meus pra fora. Senta ai gay e ouve. Ouve quem começou o movimento, dizer que começou o movimento. Quem dá a cara a tapa, dizer que da a cara a tapa. Dizer as oportunidades não oferecidas, as humilhações passadas, dentro e fora da própria comunidade. Se você não tem medo em ser problematizado, assista. Se não, catálogos de serviços de streaming estão cheios de filmes cômodos para bichas pseudo desconstruídas. E ai, caro leitor? Qual a sua escolha perante o controle remoto?…

Filipe Cerqueira é diretor da SOUDESSA Cia de Teatro, historiador pela UNEB, realizador audiovisual pelo Projeto Cine Arts – UNEB – PROEX e apaixonado por cinema.

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