“A minha inspiração brota de mim mesma e das minhas experiências de vida”, diz vocalista da banda Vibe de Patrão

Sala VIP, Serviços
26 de maio de 2016
por Genilson Coutinho

Foto: Genilson Coutinho

O cenário musical em Salvador é um caldeirão de estilos e movimentos musicais, sempre nasce novas bandas e cantores fora da grande mídia que vão ganhando espaço. O cenário LGBT baiano também vem seguindo com novos nomes nos diversos ritmos e estilo. Neste vai e vem fomos conhecer a banda Vibe de Patrão comandada por Guell Souza e pelo recém chegando Maicon Barros, que juntos estão iniciando os primeiros passos para ganhar o mercado.

Nossa equipe bateu um papo com Guell, assumidamente lésbica, que nos contou um pouco sobre sua história e como lida com o preconceito, assédios, planos e principalmente do seu estilo musical, falou também da falta de espaços para mulheres MCs. Confira a entrevista.

DT – Você é uma artista muito plural, atualmente qual é o seu estilo musical?

GS – Na verdade eu comecei cantando funk e cantava sozinha. Devido a poucas oportunidades, resolvi fazer uma banda, a Vibe de Patrão. Fui chamando um músico dali outro daqui e armei a banda onde a gente toca tudo. Logo depois resolvi chamar Maicon  Barros que é mais um representante do pagode baiano e fizemos essa junção que vem dando certo

DT – Como surgiu esse seu interesse pela música? Você esperava chegar até aqui?

GS – Meu interesse por música vem de infância, meu pai tinha uma banda de pagode chamada Poder de Pagode em que eu tocava pandeiro e fazia back vocal e as composições da banda sempre foram minhas e do meu parceiro Silvio Humaitá. Até hoje eu componho, tenho inclusive um funk gravado por um MC de São Paulo o nome da música é tontinho, tocada nas rádios de São Paulo.

DT – Porque existem poucas mulheres MCs? Você acha que existe espaço nesse estilo pra outros gêneros?

GS – Acho que por vivermos em uma sociedade machista, as mulheres ocupam poucos espaços em várias coisas. Na minha concepção a música está aberta para todos os gêneros. A mulher é capaz de fazer tudo!  Com garra, determinação e perseverança podemos alcançar nossos objetivos apesar de não termos muitas oportunidades.

DT – Você também compõe e inclusive tem algumas letras dedicadas às meninas. O que te inspira?

GS – Componho sim! A minha inspiração brota de mim mesma e das minhas experiências de vida, da minha comunidade. Eu conheço muitas músicas que só difamam a imagem das mulheres e isso me afeta e me aborrece muito porque é possível falar do gênero feminino sem agredir, sem baixaria. Eu estou aqui para fazer o contrário e mostrar que mulher é pra ser respeitada, amada e valorizada. E a minha música de trabalho fala assim: mulher é coisa boa então escute direito tratem elas com carinho e também muito respeito ela faz muito gostoso no meu fogo bota lenha pra você que bate nela, te entrego a Lei Maria da Penha.

DT – Voltando a falar da sua trajetória, como nasceu à banda Vibe de Patrão?

GS – Surgiu através do meu primo Alex Bahia, eu estava em São Paulo quando um certo dia ele me chamou no whatsapp e falou comigo: “Guell vamos armar uma banda. Volte pra Salvador não deixe de cantar não!” Eu voltei, juntei os músicos como eu havia dito e assim surgiu a Vibe de Patrão. O nome veio de uma música que fala de ostentação que é minha e do meu sobrinho Los Santos, excelente cantor de funk, inclusive.

DT– Você divide o palco com outros Mc’s e cantores. Como é para você interagir com homens tanto na música, no meio artístico e na vida pessoal?

GS – Eu admiro e respeito muitos homens, especialmente os que respeitam mulheres. Eu interajo muito bem com os caras, inclusive a maioria das minhas amizades são de homens além de ter quatro irmãos homens. Pra mim, dividir o palco com outro cantor é muito bom e está sendo maravilhoso

Foto: Genilson coutinho

DT– Como você absorve essas bandas que cantam músicas depreciativas às mulheres e LGBTs? Isso lhe afeta?

GS – Em relação às letras tocadas por algumas bandas que ofendem e tratam mulher como “cachorra, cadela” ou como puro objeto sexual para usar e descartar me dá nojo porque me afeta muito. Falo na defesa de todas as mulheres, negras, brancas mulheres trabalhadoras, as que se respeitam e inclusive sou filha de uma grande mulher e tive grandes ensinamentos em casa. A música jamais deveria trazer essa intolerância contra o gênero.

DT – O que acha que acontece com esses caras que são ditos “héteros” mas  que acabam por menosprezar as mulheres Cis (veja no final da entrevista infromações sobre o significado de mulheres CIS)  na música deles?

GS – Esses caras não sabem o que é ser homem, do gênero masculino. Eles têm uma visão equivocada da essência masculina. Penso no fundo que eles têm mesmo é medo de mulher, por isso fazem essa palhaçada toda contra o gênero feminino. Alguns se dizem ‘hetero’ e se fortalecem menosprezando as mulheres Cis-gênero e as outras também. Com todo respeito aos meus amigos gays no meu ponto de vista esses caras precisam sair do armário,  se não saírem na boa, a gente vai jogar baygon, eles tem que sair porque um homem não age  assim, nem mesmo os gays.

DT – E esse seu visual descolado chama muito a atenção. Você se define lesbica  ou homem trans ?

GS – Sou lesbica l…bofinho. As minas se amarram os gays também, mas eu digo, só mais tarde.

DT – Como você consegue se afirmar e adquirir o respeito no meio pagofunk em tempos de tanto ódio e discriminação direcionados aos LGBt’s?

GS – Eu sou transparente, não estou aqui pra baixar a cabeça pra ninguém, assim como eu respeito às pessoas também quero ser respeitada, tanto na música e onde quer que esteja, na comunidade, na escola, no supermercado. Os LGBTs não devem se envergonhar do que são, pelo contrario, viva a diversidade das coisas e das orientações sexuais. Isso é que faz o brilho da vida, do sol e da cidade. Esse povo que não ama e vive estimulando o ódio contra nosso povo LGBTs vão te que me engolir porque eu quero mesmo é revolucionar.

DT – Quais os planos para o futuro?

GS – Trabalho, trabalho e mais trabalho. Muito ensaio, muita leitura, muitas composições, exercer o meu oficio lapidando as composições, pra fazer coisas bonitas, inteligentes e melhor que não agrida a ninguém, a música é pra estimular a felicidade, não o ódio. Vou trabalhar em um CD, e, soltar na internet e começar vender shows.

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