A Lição de Daniela Mercury

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22 de abril de 2013
por Genilson Coutinho


Para uma pessoa homossexual, que é minoria nadar na contramão da correnteza da sexualidade da maioria heterossexual, só pode ser movida por algo interiormente muito forte, ter uma personalidade bem determinada. Portanto, a homossexualidade não devia ser questionada, mas a “heterossexualidade que é compulsória” (Wittig apud Butler, 2003). Ou seja, a maioria das pessoas vivencia a heterossexualidade sem se dá tempo de perceber sua real sexualidade. Embarcou na heterossexualidade porque é mais fácil, no sentido de que é sabedor do seu acolhimento social, assim, não vai se dá ao trabalho de se autoquestionar, de correr risco. Por isso, muitos casam, tem filho, e depois se assumem gays. Até porque, ter sido casado, ter filho/s, isso sugere, neste imaginário, certo atestado de normalidade, o cumprimento social da cota reprodutiva. Um perdão social implícito porque o sujeito tentou ser heterossexual, não frutou de imediato a perspectiva dessa demanda social. Mas, muitos homossexuais se mantêm casados, suas mulheres sabem ou sacam que seus maridos são gays, mas como são, em geral, bons maridos, mais sensíveis etc., elas os aceitam ou fazem de conta que desconhecem essa sua particularidade. Porém, ficam meio paranoicas em relação à amizade masculina quando é mais próxima. A declaração elegante de Daniela Mercury se assumindo homossexual, não só ajuda a atenuar o preconceito sexual, mas também é pedagógica, mostrou para o Brasil que homossexual pode gerar filhos, que são estéreis, como até Dilma Rousseff acreditava. Quando em campanha, questionada pelo repórter Efrém Ribeiro (2011), de Teresina-PI, sobre sua sexualidade Roussef respondeu: ‘Eu tenho uma filha e sou avó. Pelo amor de Deus!`. Assim como Mercury que era casada com homem, muitos homens gays são casados, têm filhos e são avôs e vivenciam sua homossexualidade – vida dupla – tranquilos, por conta desse seu estado civil ninguém os importunam, porque na mentalidade do brasileiro é impossível gay ter intimidade sexual com mulher, por sentir asco e, necessariamente, tem apresentar ´visibilidade do estigma` (Goffmam, 1988), ou seja, ser feminino e com trejeitos. É sobre esse que recai toda discriminação e condenação social, até mesmo dos próprios homossexuais com preconceito sexual internalizado.
Valdeci Gonçalves da Silva
* Psicólogo, Professor Universitário, Doutorando em Psicologia Clínica na Universidade de Évora-PT, Especialista em Metodologia do Ensino de 3o grau, Mestre em Sociologia da Sexualidade. (valdecipsi@hotmail.com).